Reflexões sobre a 47ª Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações

| 09/05/2013 | 0 Comentário

47MCSNo próximo dia  12 de maio, na Solenidade da Ascensão do Senhor, será celebrado o 47° Dia Mundial das Comunicações Sociais. Segundo tradição eclesial, desde 1967, no mês de janeiro, o papa publica uma mensagem com o objetivo de preparar a celebração do dia da Jornada e a realização de alguma atividade nas comunidades católicas. As mensagens versam sobre temas relativos à comunicação, e desde 2008,  ressaltam os recursos digitais como meios propícios ao anúncio do Evangelho.

O tema deste ano tem como título:  Redes Sociais: portais de verdade e de fé; novos espaços de evangelização e aborda as mídias digitais interativas, conhecidas equivocadamente como “Redes Sociais” as quais  têm se tornado uma ‘febre’, principalmente entre os jovens. Embora o título pareça sugerir que a mídia digital possa ser um ‘portal de verdade e de fé”  deve-se lembrar que  ela é somente o suporte onde a ‘Rede Social’ acontece.  Provavelmente, todos os que se utilizam de uma mídia digital interativa já perceberam que ela, em si, não tem poder de criar  rede, e tampouco ela é uma rede, mas, neste caso, apenas o meio eletrônico utilizado por  redes de pessoas com interesses afins, para se conectarem entre si. O que menos importa para a efetivação da rede é o meio utilizado, pois quem as constrói são as pessoas.   Quando Jesus chamou os apóstolos e eles chamaram outros seguidores que se espalharam nas comunidades cristãs, estas se constituíram redes sociais dos discípulos de Jesus. E assim deveria ser vista a Igreja, como uma grande rede de discípulos! A Conferência Episcopal de Santo   Domingo afirmou que as paróquias deveriam ser redes de comunidades, reflexão retomada pelos bispos brasileiros em sua Assembleia deste ano.  Somente neste sentido, uma rede de cristãos que se utilizam de uma mídia social pode configurar-se  como um ‘portal de verdade e de fé’.

O Papa Bento XVI, que em janeiro ainda era pontífice, recorda que, com o aumento de pessoas que utilizam a Web, é natural que os anseios fundamentais de amar e ser amada e de encontrar o significado e a verdade que o próprio Deus colocou no coração de cada pessoa, também possam ser manifestados nas mídias digitais e que em função disto, estes espaços podem se configurar também como espaços de trocas de experiências religiosas profundas e até colaborar para o fortalecimento da fé. Em uma linguagem digital, pode-se dizer que todos os discípulos de Jesus do século XXI podem se assumir como pontos de conexão daqueles que desejam ‘se conectar’ a Ele. O Papa insiste que não deve ‘haver falta de coerência ou unidade entre a expressão da nossa fé e o nosso testemunho do Evangelho na realidade onde somos chamados a viver, seja ela física ou digital’, isto é, quem se utiliza da Web, deve, também nela, dar testemunho de sua fé.

A mensagem nos faz refletir que, por trás deste avassalador uso das mídias sociais, parece haver um forte desejo de comunicação que pode ser entendido como um grito sufocado pela sociedade pós-moderna, que apesar de criar as mídias, não se empenha para que nelas haja comunicação efetiva. Trata-se, portanto, de um questionamento sobre o que compreendemos por Comunicação! Uma das cenas mais bonitas do Evangelho, que evoca a comunicação, é o encontro de Jesus com a Samaritana (Jo 4,5-52). A mulher que, ao falar, desejando antes ser ouvida, encontrou-se com Aquele que se fez ouvido. A atitude de Jesus de deixá-la falar evangelizou a samaritana! É verdade que Ele a catequizou, mas só depois de fazê-la sentir-se acolhida. Esta, também, pode ser a realidade de muitas pessoas que utilizam as mídias sociais. Em uma rápida visita, percebemos a multiplicidade de novas postagens que são realizadas sem, no entanto, haver interações nelas. Via de regra, muitos querem ‘falar’ ou  escrever sobre tantas ‘coisas’, e, às vezes, até íntimas, num espaço tão vulnerável onde palavras se perdem sem serem ouvidas, como folhas ao vento!Parafraseando Santo Agostinho, as aspirações radicadas no coração da pessoa indicam que estas buscam mesmo quando não sabem, ao certo, o que buscam. Talvez seja por isso que as chamadas redes sociais estejam mais para ‘Torre de Babel’ e pouco para ‘Pentecostes’; todavia, seguindo o ensinamento da encíclica Redemptoris Missio é este areópago que precisa ser assumido e evangelizado. De outro lado, também não pode ser esquecido que este espaço é predominante ocupado por jovens que em sua maioria ainda estão em busca de caminhos de vida e que para estes uma ação evangelizadora através da Web seria muito benéfica. No documento Igreja e Internet, o Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais lembra que a Web não deve despertar nossa atenção apenas pelo que de útil ela pode nos oferecer, mas pelo desafio de ser presença eclesial neste espaço que precisa ser evangelizado por inteiro. Este é o campo de missão para a Igreja do século XXI e a Boa Nova pode ser seriamente prejudicada se ela não se fizer presente nesta ágora moderna, tal qual a mensagem deste ano destaca.

Se a Web se caracteriza como um novo espaço de Evangelização, nova deve ser a relação dos agentes com este importante meio. Não basta, então, utilizar os meios para se afirmar que a Igreja está presente na Web. São poucos os agentes que se despertaram para este campo, mas estes ainda parecem mais preocupados com o meio em si do que com as novos métodos que são exigidos para Evangelizar a Web, e na Web. A presença eclesial na internet não deve ser em função da visibilidade da Igreja, preocupação desde o Concílio de Trento, mas a de assumir a cultura que brota deste meio. As mídias digitais colaborativas e interativas acabam induzindo reflexões sobre os modelos sociais em redes, que por sua vez, acabam por provocar revoluções na sociedade. Não é possível utilizar a rede digital sem deixar de refletir sobre as possibilidades de novas práticas sociais integradas em redes. O próprio papa Bento XVI, na 43ª mensagem:  Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade, já havia destacado que novas tecnologias exigem novas relações. Na mensagem deste ano o Papa escreve: ‘A cultura das redes sociais e as mudanças nas formas e estilos da comunicação colocam sérios desafios àqueles que querem falar de verdades e valores’.Não há como não associar estas reflexões às propostas de renovação  do Vaticano II, especialmente aquelas expressas na Lumem Gentium, que resgataram a importância da dimensão comunitária e participativa da Igreja ‘Povo de Deus’’, pois somente uma Igreja cada dia mais participativa e comunitária, com práticas eclesiais em rede,  conseguirá  fermentar o mundo. Usar a tecnologia digital a partir de uma eclesiologia pré-concilar não só é anacrônico, como contraproducente ao Evangelho.

Avançando na compreensão entre presença física e presença on-line, surpreendentemente, o papa supera a compreensão de que o mundo digital é algo que não existe, pois afirma que  “o ambiente digital não é um mundo paralelo ou puramente virtual”, mas que faz parte da realidade cotidiana de muitas pessoas, e especialmente dos mais jovens. Nesta afirmação, ele deixa claro que virtualidade é uma coisa e imaterialidade é outra. Na Web as pessoas se comunicam e, especialmente nas mídias interativas, constroem e edificam relações. Ela  é, então, um excelente espaço para o testemunho cristão, principalmente através da acolhida e  da interação que pode desencadear questionamentos e  interpelar os corações, pois muitas pessoas  estão em busca da verdade e do sentido da existência humana.

Por fim, o texto destaca que a utilização da web contribui para enaltecer a relevância da religião no debate público e social, pois, como prática social, ela não pode ser restrita à dimensão privada. Os cristãos podem e devem ocupar todos os espaços possíveis na sociedade para testemunhar a fé e assim contribuir para a construção de um mundo melhor. A  Web faz parte deste mundo, e tal qual uma grande praça virtual, ela se configura como um espaço onde as pessoas podem se relacionar e os discípulos de Jesus testemunharem a fé e a esperança que possuem.  O Documento 80 da CNBB, 2010, ao tratar dos novos desafios da evangelização e da missão profética da Igreja, nos lembra que há “muitas atividades pastorais e restam muitas necessidades que nos interpelam; faltam-nos convertidos para abraçá-las e transformá-las em tantas outras maneiras de tornar o Evangelho de Jesus conhecido”. Dentre estas necessidades que nos interpelam, a Web, sem dúvida, está entre elas. Eis aí o grande desafio para o cristianismo do século XXI!

 

 

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