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O Silêncio na Web

 
 
O silêncio é um campo
plantado de verdades
que aos poucos se fazem palavras.
Thiago de Mello
 

 

 

No dia 24 de janeiro foi publicada a mensagem do Papa Bento XVI para o 46º Dia Mundial das Comunicações Sociais com o título ‘Silêncio e palavra: caminho de evangelização’ que se realizará dia 20/05/2012.  Não fosse o quinto parágrafo, este texto seria visto apenas como uma reflexão sobre a necessidade do silêncio na comunicação. O fato é que as últimas publicações do Pontifício Conselho para as Comunicações e mesmo as mensagens dos dois últimos Papas reconhecem a Web como uma das muitas ‘maravilhas da tecnologia’ (Decreto Conciliar Inter Mirifica), razão pela qual a Igreja têm incentivado a presença efetiva dos cristãos na rede mundial de computadores. De forma surpreendente e paradoxal, a mensagem do Papa, para este ano, propõe a reflexão sobre o silêncio na Web. Em razão disso, ela é provocativa e profundamente iluminadora para a pastoral urbana.

A Web tem atraído muitas pessoas que a consideram um espaço por excelência para resolver a ânsia da modernidade: a democrática e livre expressão do pensamento. Basta ver o sucesso das mídias sociais, erroneamente chamadas de rede sociais – como se,  por si só, elas fossem capazes de construir redes entre pessoas – nas quais pululam manifestações que vão muito além do marketing pessoal e chegam a um exibicionismo que, em alguns casos, resultam em sérios prejuízos às pessoas. Na Web e, especialmente, nas mídias sociais acontece um fenômeno que pode ser comparado com a torre de Babel (Gênesis 11,1-9), onde a maioria dos internautas se preocupa em expressar-se e mostrar-se, sem se importar com o outro enquanto pessoa. Todos querem ‘falar’ e poucos interessam ‘ouvir’, se é que alguém ‘ouve’ ou, no caso, ‘lê’ o que se publica na Web. Todos ‘falam’ ao mesmo tempo e, talvez, por isso, poucos se entendem. Numa visão mais geral, basta ver que poucos são os que se preocupam em responder e/ou interagir com comentários registrados nos sites, nos blogs ou nas mídias sociais. Especialmente no Twitter, grande parte dos twitteiros se preocupa mais em aumentar o número de seguidores do que em seguir outros. As justificativas são variadas, mas o fato é que desejam ser ouvidos sem fazer o mínimo esforço para ouvir.

Há vários anos cresce o uso da Web pelos cristãos, porém, ainda é imperceptível o diferencial que deveria decorrer da essência da vocação cristã. Infelizmente, a maioria deles não usa as mídias sociais segundo o Evangelho, mas segundo os apelos do mundo. Isso acaba sendo  um desserviço à Evangelização, pois  as atitudes acabam negando o que, por palavras, se afirma. Isso ocorre porque ainda predomina a cultura eclesial que julga que a Igreja está acima de tudo e de todos e, por isso, tem muito a falar e  pouco  a ouvir. Nesta mensagem, entretanto, o Papa ensina que não deve ser assim.

Na vertente dos documentos conciliares, as últimas mensagens para o Dia Mundial das Comunicações Sociais têm conclamado os cristãos a evangelizarem a Web, a grande expressão da cultura moderna, o ‘moderno areópago‘ definido pelo Papa João Paulo II. Pois é ali, onde muitos supervalorizam a subjetividade e negam os valores comunitários, que os cristãos são convocados pela Igreja a se fazerem presentes para Evangelizá-la. A 43º Mensagem do Dia das Comunicações Sociais, de 2010, incentivou os jovens a viverem uma cultura de respeito, de diálogo e de amizade na Web. Dom Cláudio Maria Celli, no final do mesmo ano,  chegou a criar a expressão ‘diaconia da cultura’ para referir-se à urgente e necessária presença dos cristãos no chamado continente digital. Em 2011, o Papa Bento XVI, na mensagem “Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital”, enfatizou ”que não se trata de marcar presença e/ou considerar a internet apenas como um espaço a ser ocupado, mas que a Igreja deve estar presente para ser sal e luz, isto é, para da testemunhos de solidariedade e de esperança em todos os lugares!

A mensagem deste ano dá um passo à frente nessa proposta. Ela lança quase um desafio: promover o silêncio da escuta de Deus nos corações dos internautas, uma profunda reflexão espiritual para os tempos modernos. O apelo do Papa questiona o uso da Web pelos cristãos e traz implícita a questão se todos os supostos apelos para a interação na Web ajudam as pessoas a ouvirem Deus.  O Papa lembra que o uso da Web na Evangelização deve favorecer o encontro das pessoas com Deus e de umas com as outras e  lembra, ainda, que fazer silêncio é, também, solidarizar-se com os pequeninos de Deus que não são ouvidos e não têm voz, os excluídos do mundo. Ao afirmar que uma simples frase pode dizer muito (há quem diga que ele teria feito apologia ao Twitter), o Papa lembra que a Igreja existe para anunciar Deus e não anunciar-se a si própria, pois,  aquela que anuncia não pode se confundir com a mensagem.

Disso decorre que Evangelizar na Web não é somente publicar textos e doutrinar e/ou transmitir conteúdos, mas ajudar as pessoas a descobrirem a ‘resposta que o bondoso Deus  já inscreveu no coração de cada o homem’, e que somente um silêncio profundo permite escutar e ser capaz de contemplar o inefável dom de Deus que habita em cada ser humano.

 

Imagem:  Candle –Stock photo

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