Nada como pressuposto!

| 16/02/2012 | 1 Comentário

Não temos de dar nada como pressuposto e descontado. Todos os batizados são chamados a ‘recomeçar a partir de Cristo’, a reconhecer e a seguir sua Presença com a mesma realidade e novidade, o mesmo poder de afeto, persuasão e esperança, que teve seu encontro com os primeiros discípulos nas margens do Jordão há 2000 anos, e com os ‘João Diego’ do Novo Mundo. (DA 549)

 A epígrafe acima, da qual foi extraído o título para este texto,  faz parte das Conclusões da Conferência de Aparecida. Nela se reflete que a evangelização exige que todos os cristãos, indistintamente, retomem a experiência fundante do encontro com o Senhor como condição para a missão. Entende-se, pois, que se trata de um forte alerta àqueles que, por seus diversos ministérios, se aplicam aos processos formativos e informativos. A experiência do encontro com Jesus Cristo não pode ser dada como pressuposta.

 A Conferência de Aparecida deu a entender que a percepção da ‘Igreja comunhão’ já foi razoavelmente assimilada pela comunidade eclesial. O desafio agora é desenvolver a missionariedade da ‘Igreja’, daí a razão da maioria dos dez capítulos refletir sobre os vários aspectos da vida dos ‘discípulos missionários’. O capítulo VI, um dos mais importantes, indica os caminhos para formar os discípulos missionários, os responsáveis pela Grande Missão Latino Americana.

Este importante documento do magistério latino americano nos permite interpretar que não se pode negar que existe uma cultura cristã subjacente na sociedade moderna em nosso continente. Ela formou pessoas que, razoavelmente, conhecem a Bíblia, parte da doutrina católica e muito do universo religioso católico e, em função disso, muitas se consideram católicas. Entretanto, isso não significa dizer que elas abraçaram e assumiram o projeto do Reino de Deus, anunciado por Cristo Jesus.  A forma como muitos cristãos vivem no século XXI não desperta o desejo em outras pessoas de imitá-los, pois parece que o ‘ser do mundo’ os seduziu a ponto de ‘colocarem suas lâmpadas embaixo da mesa’, tornando-os um tanto apagados na fé. São cristãos, de fato, mas não irradiam a Luz do Cristo no mundo.

Não dar nada por pressuposto exige uma espiritualidade do encontro, que reconheça no outro a presença de Deus. E todo encontro exige abertura às necessidades da outra pessoa, sendo, portanto, mais importante saber o que o outro precisa,  do que aquilo que se deseja apresentar.  Se já se sabe, de antemão, o que é e como deve ser feito, aquele que deveria ser o sujeito da evangelização passa ser, na verdade, transformado em objeto dela. E, isto é muito claro de se compreender quando analisamos o conceito de  comunicação onde é preciso haver emissão e recepção da mensagem. De nada adianta o emissor enviar a mensagem sem se preocupar se o receptor a recebe, em que condições a recebe e se a compreende.

Comunicação, antes de tudo, é deixar espaço para que o outro também se manifeste.  O emissor precisa estar despojado do pressuposto de que todo o ciclo da comunicação tenha se completado pelo simples fato da mensagem ter sido emitida. Exemplo disso são os sacramentos. Será que quando as pessoas pedem os sacramentos, elas os compreendem da mesma forma como a Igreja? Será que nós, agentes de pastoral, nos interessamos em compreender os motivos antropológicos e sociológicos que levaram aquela pessoa a vir ao nosso encontro para pedir um sacramento? Ou será que, ao indicar um breve e singelo cursinho preparatório, não estamos dando por pressuposto uma série de coisas?  Não reside aqui um problema de comunicação?

Podemos pensar que é isso que o texto de Aparecida quer dizer com a expressão: “não dar nada como  pressuposto”. Que bonita abertura para que o outro não seja cobrado por aquilo que ele não recebeu! Não há como deixar de lembrar o texto do ministro da rainha de Candace que, humildemente, confidenciou a Felipe que ele não poderia conhecer a Torá, pelo simples fato que, até então, ninguém lhe havia anunciado (At 8,27-31).

Não é de hoje que se insiste que a formação é um pilar importante na ação evangelizadora da Igreja! Mas de que formação nós estamos falando? E formação para quem e para quê? Quase todos os nossos processos formativos partem do pressuposto que as pessoas precisam de conhecimento bíblico, doutrinário e teológico e nos esquecemos de tantas outras necessidades das pessoas e, justamente, parece que estas são que mais fazem falta. Seria tão simples agir como Felipe, que não deu aula de Bíblia nem de doutrina, mas falou com toda força de seu coração o que significava a presença do Senhor em sua vida e como Ele a modificara. Isso desencadeou, no ministro de Candace, o desejo de se tornar alguém como Felipe. Querendo imitá-lo, pediu-lhe o batismo  que lhe foi concedido. Ali começava a formação de um novo discípulo de Jesus!

Por fim, ao afirmar que todos devem ‘recomeçar a partir de Cristo’, o documento de Aparecida indica também que o campo de missão não é apenas o outro, mas, antes, nós mesmos! Nossa missão, então, antes de tudo, é dar testemunho das maravilhas operadas por Deus em nossas vidas!

Registre seu comentário

Comentários (1)

Trackback URL | Comentários RSS Feed

  1. Caros amigos Rachel e Gazato
    A reflexão sobre a missionariedade dos discípulos toca em cheio no tema da Iniciação Cristã que estamos debatendo no Facebook (http://www.facebook.com/groups/evangelizacao/doc/371914359494145/). O conhecimento, e a consequente transmissão, do Cristo não se dá através do saber adquirido em cursos e estudos, mas pela experiência do Encontro com Ele. Nesta perspectiva, creio que todos – se, de fato, cristãos – podem anunciá-lo. O problema parece residir em uma compreensão viciosa que associa formação intelectual com espiritualidade.

Registre seu comentário