A Lua como símbolo da Igreja

Acabamos de publicar a oitava  Ficha de Estudo  sobre o Concílio Vaticano II  que apresenta reflexões sobre o primeiro capítulo da Constituição Lumen Gentium: O Mistério da Igreja.

Este capítulo destaca que a Igreja se insere, e portanto, participa do Mistério de Cristo: Ele é a Luz dos Povos e ela existe como um sinal do Reino para que a  humanidade encontre o seu Senhor. Para ajudar na compreensão deste Mistério, a Constituição Dogmática indica algumas imagens: redil, rebanho, lavoura, construção, Jerusalém celeste, Nossa Mãe, Esposa Imaculada, Corpo Místico de Cristo e, especialmente no capitulo II apresenta a imagem: Povo de Deus.

Bem sabemos de imagens, igualmente belas e de rico significado, que nos ajudam a compreender o Mistério da Igreja. Provavelmente, a mais conhecida, dentre as não citadas no documento, é a imagem da barca que evoca a bela perícope (Mt 8,23-27) que narra a presença de Jesus junto aos discípulos numa barca que, apesar da tempestade,  não afunda.  Uma das interpretações dominantes na tradição eclesial é que esta barca é a Igreja e Jesus é o seu timoneiro, é Ele quem a conduz! Sua promessa de estar presente nela  até o final dos tempos sustenta a barca e os que dentro dela estão.  Ela não perecerá!

Outra bonita e rica imagem da Igreja, porém não tão conhecida, é a Lua. O registro escrito mais antigo desta imagem é atribuído ao famoso bispo de Milão, Santo Ambrósio (340-397), doutor da Igreja, que instruindo seu povo, a usou em uma de suas homilias para ensinar sobre o Mistério da Igreja. Para  explicar que ela  existe em função do Cristo, ele a compara com a Lua que não possui luz própria, mas reflete a luz do Sol. Da mesma forma, a Igreja está no mundo para refletir a Luz de Cristo (Fulget Ecclesia non suo sed Christi lumine).  Ela é mediadora e dispensadora da graça santificante; ela é sinal do Reino, mas não é o Reino. A luz que pela Igreja transparece não é sua, mas sim, a Luz de Cristo. Como cada singular cristão, a Igreja pode dizer como Paulo, ‘não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim’ (Gal 2,20).

Faz parte da natureza da Lua os seus seus ciclos, também chamados de fases, que acontecem em função dos seus vários movimentos em torno de si mesma, em torno da Terra e em torno do Sol. Em todas as fases, por menor que pareça o seu tamanho, a Lua reflete a luz do Sol, pois se trata de uma luz que  independe dela. A percepção diferente se dá em função dos movimentos da Lua e da Terra e de quem os observa: tudo é dinâmico e, por isso, mutável!

Da mesma forma, também é a Igreja. Cristo a quis humana e, por isso, é natural que ela tenha suas “fases” de maior ou menor brilho. Santo Ambrósio, ensina que todas as fases da Lua evocam as fases da Igreja. É natural que a fase da  Lua cheia, maior e mais bonita, pareça-nos refletir mais intensamente a Luz do Cristo. Não nos esqueçamos que a Páscoa ocorre sempre nesta fase da Lua!

Todavia, a fase da Lua minguante também apresenta, ainda que paradoxalmente, o Mistério de Cristo, pois quando “esvaziada”, ela revela o que permanece: “Aquele que tudo preenche”. Fica claro, então, que Cristo independe da Igreja para manifestar o seu Mistério, Ele não é anunciado só quando a Igreja age, pois é Ele quem toma a iniciativa, isto é, Deus tem caminhos que não são os caminhos  humanos. Na contradição, a Igreja,  mesmo sem brilho, anuncia o Mistério de Cristo. Isso nos faz lembrar  os esforços que a Igreja faz para se manter no mundo. Nem sempre suas escolhas são as mais acertadas e, quando isso acontece, seu brilho também diminui. Todavia, isso não a impede de continuar cumprindo sua missão até a chegada de uma nova fase. Tudo o que lhe  ocorre, mesmo ‘em fases de Lua cheia’, não se dá por seu próprio mérito, mas porquê ela, antes, foi escolhida pelo Senhor. Nisto podemos contemplar a grandeza do amor de Cristo pela sua Igreja!

Esta reflexão é um breve comentário do texto “Luz refletida”, escrito por  Lorenzo Cappelletti,  publicado na Revista 30 Giorni em 2009. Para ler   o artigo acesse [aqui].

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Comentários (4)

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  1. Olá, Lúcia e Rachel

    Este texto é uma modesta partilha daquilo que já li e refleti a respeito. O texto de Lorenzo Cappelletti, realmente, é muito bonito e foi o motivador dele. Na web há textos profundos que se perdem em meio a tantos outros. Devemos compartilhar nossas descobertas e é isso que estamos tentando fazer nas mídias sociais que utilizamos no A.V.F.! Selecionar, filtrar e reordenar o que há de melhor da ‘rede’ é um dos grandes desafios aos que se dedicam a produção de textos para a web.
    Evidentemente que toda comparação possui seus limites, mas esta nos permite refletir sobre o lado humano da Igreja e, evidente, sobre nós mesmos. Se ela fosse perfeita, muita coisa seria melhor, mas, com certeza, nós estaríamos fora dela! Jesus Cristo quis que todo o seu POVO fizesse parte dela. Que ela é pecadora, sabemos pela nossa própria experiência. Urgente é descobrir a santidade, que está escondida, muitas vezes, nas pessoas e lugares onde menos procuramos ( 1Rs 19, 12-13).
    Obrigado pelos comentários!
    Abraços!

  2. Lucia Campos disse:

    Se ela fosse perfeita estaríamos fora dela….. (bom demais, para grande reflexão)

  3. Aluizio de Oliveira disse:

    Pedro!
    Parabéns pela abertura do espaço do AVF para uma exegese mais abrangente não se limitando aos textos centralizados. Nossa formação precisa de um contexto que inclui conhecimentos das diversas etnias e escolas que nos ajudam a desenvolver a convicção naquilo que estudamos. A Patrística, a mitologia, os símbolos são subsídios importantes para nosso grupo.
    A lua realmente tem simbologia e atributos importantes no dia a dia: podemos falar da sua influência nas marés, no clima e, também no comportamento do corpo humano, principalmente no corpo feminino que tem suas regras pautadas no movimento lunar.
    Quanto ao dia do sol, podemos acrescentar a simbologia do oitavo dia como o dia do Sol. Jesus foi circuncidado no oitavo dia (ofericido a Deus), ressucitou no oitavo dia (primeiro dia depois do sábado) etc.
    Essa litereatura é uma epifania para nosso aprimoramento cultural.

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