Ficha 25: Decreto Unitatis Redintegratio (UR)

| 15/08/2012 | 0 Comentário

 DECRETO “UNITATIS REDINTEGRATIO” (UR)

SOBRE O ECUMENISMO*

  

Em 1960, o Papa João XXIII criou o Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos, abrindo caminhos para uma posição eclesial mais clara em favor desta causa. Posteriormente, o Concílio Vaticano II teve como uma de suas principais preocupações a promoção da unidade das Igrejas e Comunidades Eclesiais cristãs separadas da Sede Apostólica de Roma. Em 21 de novembro de 1964, o Papa Paulo VI promulgou o Decreto Conciliar Unitatis Redintegratio (Reintegração da Unidade – UR) sobre o Ecumenismo, uma orientação pastoral de como a Igreja deseja que os cristãos católicos vivam e anunciem a mensagem cristã, trabalhando pela unidade, como sinal de fidelidade a Jesus Cristo. Uma das principais finalidades deste Concílio é alcançar novamente a unidade de todas as Igrejas e Comunidades Eclesiais a fim de constituir na terra um só Corpo de Cristo, ao qual é necessário que se incorporem plenamente todo o Povo de Deus.

No Proêmio do documento, lemos que ‘o Cristo Senhor fundou uma só e única Igreja’, porém, são inúmeras as Igrejas Cristãs com diferentes modos de interpretar a doutrina, com pareceres diferentes, como se o próprio Cristo estivesse dividido. Nos primeiros séculos, ideias divergentes agitaram o Cristianismo, porém, as primeiras divisões se formalizaram no segundo milênio da nossa história. No século XI (1054), em razão de problemas políticos, culturais e doutrinários ocorreu o primeiro cisma que quebrou a unidade da Igreja, dividindo-a em Igreja Ocidental (Católica Romana) e Igreja Oriental (Ortodoxa Grega). Posteriormente, o movimento iniciado por Lutero, denominado Reforma Protestante, em 1517, fez surgir novas Igrejas que ficaram conhecidas como Igrejas Protestantes ou Reformadas, sendo elas: Luterana, Calvinista e Anglicana, e mais  tarde, nos EUA, surgiram novas Igrejas  Reformadas: Presbiteriana, Metodista, Batista etc. A principal característica delas é a existência de uma “Confissão” própria, com os princípios de fé e doutrinais próprios, tal qual é o “Credo” para os católicos. Esta divisão, sem dúvida, contradiz abertamente a vontade de Cristo, escandaliza o mundo, além de prejudicar a pregação do Evangelho.

Inúmeros esforços têm sido feitos no sentido de romper esses distanciamentos, buscando restabelecer as relações e construir alternativas para que todos estejam juntos e unidos na mesma oikoumene [1], a casa comum da humanidade, onde todas as pessoas têm o direito de viver e conviver pacificamente, segundo o desejo expresso por Jesus Cristo na sua prece ao Pai, apresentando o coração da proposta ecumênica: “[...] que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti; que sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). Participam do ecumenismo aqueles que invocam o Deus Trino, e confessam a Jesus como Senhor e Salvador, não só individualmente, mas também reunidos em assembleia, “pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou eu no meio deles” (Mt 18,20).

Ao abordar a prática do ecumenismo, o Concílio recomenda aos fiéis católicos que eliminem palavras, juízos e ações que dificultam o relacionamento; que promovam o diálogo e a oração entre os irmãos das várias Igrejas, em vista do bem comum, dando os primeiros passos na aproximação, sob a orientação das autoridades competentes; e que reconheçam e estimem os bens verdadeiramente cristãos, vindos de um patrimônio comum. O documento lembra também que, nessas Igrejas, há mártires da fé, gente de testemunho admirável, cujo exemplo contribui para a nossa edificação.

Embora as Igrejas e Comunidades eclesiais que se separaram da Sede Apostólica de Roma desde a Reforma continuem ligadas à Igreja Católica pelos laços culturais, vivenciados ao longo dos séculos anteriores à separação, existemalgumas divergências que ainda persistem, por exemplo, sobre Cristo, Palavra de Deus encarnada; sobre a obra da redenção; sobre o mistério e o ministério da Igreja; e sobre o papel de Maria na obra da Salvação. Entretanto, o Batismo, único sacramento comum das Igrejas cristãs, e a Sagrada Escritura, enquanto Livro comum do Cristianismo, são instrumentos de diálogo para alcançar a unidade entre os cristãos que estão ligados à Palavra de Cristo como fonte da força cristã e obedecem ao preceito do apóstolo: “Tudo o que podeis dizer ou fazer, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças, por ele, a Deus Pai” (Cl 3,17).

Nos últimos 50 anos, o ecumenismo ganhou amplitude, e abaixo estão relacionados alguns dos mais representativos organismos ecumênicos:

  • O Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos (PCPUC-1989), tem como objetivo por em prática a UR, atua em cooperação e como membro pleno da Comissão Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas – CMI [2] (1948) e participa ativamente das muitas atividades para a Promoção da Unidade dos Cristãos, que todos os anos celebra a Semana de Oração de Unidade dos Cristãos (em Janeiro no hemisfério Norte e em torno de Pentecostes no hemisfério Sul), evento que reúne congregações e paróquias de todo o mundo.
  • O  Conselho Latino Americano de Igrejas  – CLAI (1982), com a finalidade de promover a unidade entre o povo cristão do continente, preserva as identidades de cada tradição.
  • E o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC [3] (1982), organismo ecumênico brasileiro, está aberto ao diálogo e à colaboração com as outras organizações eclesiais, de modo não teórico, mas na prática, sem a intenção de substituí-las ou competir com seus programas.

 Em nosso continente, os bispos reunidos em Medellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992) aplicaram à Igreja Católica o espírito do Concílio e recomendaram que o ecumenismo fosse uma realidade na catequese, no convívio das famílias, no diálogo desarmado, na colaboração com a promoção dos direitos humanos, na liturgia com celebrações ecumênicas da Palavra, e que os agentes de pastoral e o clero tivessem formação ecumênica.

No Brasil, a prática do ecumenismo é um grande desafio. No século XIX, as Igrejas Protestantes de missão, oriundas das Igrejas Reformadas americanas (Igrejas Evangélicas), ingressaram com a finalidade de estender o protestantismo; e no século XX, as Igrejas Pentecostais, e mais recentemente as Neopentecostais, chegaram assumindo um caráter fortemente proselitista, pregando contra o catolicismo, com a finalidade de converter a população católica. Disto resulta que, por um lado, a Igreja procura estabelecer relações de proximidade e diálogo com as Igrejas protestantes históricas e, por outro, tem dificuldades para relacionar-se com algumas Igrejas Pentecostais e Neopentecostais que se negam a participar do movimento ecumênico, justamente por não aceitarem dialogar com ela. Apesar de todas estas dificuldades, nos anos de 2000, 2005 e 2010, a Campanha da Fraternidade, promovida pela Igreja Católica, foi assumida como Campanha Ecumênica com o envolvimento da reflexão e mobilização conjunta de muitas Igrejas Cristãs que lutam juntas na defesa de direitos e necessidades de todos, especialmente dos mais desprotegidos.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tem promovido o ecumenismo através da Comissão Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso.

 O texto do Decreto UR termina declarando confiança no diálogo ecumênico e na unidade dos cristãos, e mostra que a reconciliação das Igrejas é tarefa que ultrapassa as possibilidades humanas, pois só é possível com a força da Trindade. O ecumenismo é mesmo o sopro do Espírito de Deus que nos ensina que é possível sermos um, mesmo sendo diferentes, porque, embora sejam significativas, as diferenças que nos separam não podem superar o amor do Pai que nos une.

A cooperação de todos os cristãos exprime os laços que os unem entre si e faz resplandecer mais plenamente a face de Cristo Servo. Ela deve ser aperfeiçoada sempre mais, na medida em que  contribui para promover a dignidade da pessoa humana e a paz, a superação da fome, o  analfabetismo, a pobreza, a falta de habitações e a distribuição de bens. Cabe aos cristãos reconhecer estes sinais e participar do trabalho ecumênico: “Ser uma Igreja ecumênica para transformar este mundo em um mundo de Deus”. Só assim se compreenderá que os cristãos têm a mesma missão e que estão na barca de Jesus, na qual todos são chamados a construir uma oikoumene com justiça e paz: entre os povos, com a terra, do ser humano consigo mesmo e com a fonte originária da vida, que é Deus, de onde tudo veio e para onde tudo vai…

 Notas

* Esta ficha está sendo publicada anteriormente à Ficha sobre a Declaração Nostra Aetate.

[1] Oikoumene, ecumene, ecumenismo, do grego oikos, que significa casa, povo, habitação, relação, amizade, coabitação, familiaridade, terra habitada, mundo conhecido, reconhecimento, hospitalidade entre outros. Trata-se de um conceito relacional e dinâmico, que envolve uma responsabilidade comum entre os cristãos, e que abraça toda a comunidade humana = ‘transformar a oikoumene a terra habitada’, na família vivente (oikos) de Deus.

[2] CMI criado em 1948, com sede em Genebra, é uma comunidade de 347 igrejas cristãs de mais de 120 países de todos os continentes e tem como finalidade facilitar a ação comum das igrejas, desenvolver consciência ecumênica, organizar conferências, estabelecer relações com organismos e movimentos ecumênicos pelo mundo.

[3] São membros do Conic: Coordenadoria Ecumênica de serviço (Cese), Koinonia Presença Ecumênica e Serviço, Centro Ecumênico de Serviço à Evangelização e Educação Popular, Centro de Estudos Bíblicos (Cebi), Comissão Nacional de Combate ao Racismo (Cenacora), Ação dos Cristãos para a Abolição da Tortura (Acat-Brasil), Dia Mundial de Oração (DMO). São sete Igrejas no CONIC: Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Católica Ortodoxa Siriana, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Metodista, Igreja Presbiteriana Unida, Igreja Episcopal Anglicana e Igreja Cristã Reformada.

 E-REFERÊNCIAS:

João Paulo II, Encíclica Ut Unum Sint

Vaticano II, Decreto Unitatis Redintegratio

PARA REFLETIR:

1) Quais os aspectos mais importantes do Ecumenismo?

2) O que tem sido feito em nossas Comunidades para colocar o decreto UR em prática? Temos desenvolvido uma espiritualidade ecumênica?

3) O que foi importante para você nesta Ficha, no que diz respeito à sua prática ecumênica?

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Aguarde a publicação da próxima ficha: 29/08– Declaração  Nostra Aetate (NA)

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