Ficha 8: O Mistério da Igreja – LG (1ª)

| 09/11/2011 | 3 Comentários

Constituição Dogmática LUMEN GENTIUM – Sobre a Igreja

A Luz dos Povos, a luz das gentes!

Introdução e o Mistério da Igreja (LG 01) 

 

Introdução

Sem sombra de dúvidas, a Lumen Gentium (LG) é um dos documentos mais importantes do Concílio Vaticano II, pois trouxe aos leigos e leigas, e à própria Igreja enquanto Instituição hierárquica – conhecida e respeitada no período pré-conciliar como uma “sociedade perfeita fora da qual não existe salvação” – uma nova imagem da Igreja como “Povo de Deus”, formada por todos os batizados em Cristo, e com Ele transformados em um Reino de sacerdotes para Deus. Sacerdotes, profetas e reis que, independentemente do sacerdócio comum ou do sacerdócio ministerial, participam do Sacerdócio único de Cristo (Heb 5,1-10).

Pelo conteúdo e pelas profundas implicações para o futuro, a elaboração e a votação da LG foram um tanto conturbadas e muito discutidas. Ao texto inicial, elaborado em quatro capítulos, foram apresentadas cerca de quatro mil emendas, o que resultou em sua alteração para sete capítulos, originando a primeira Constituição Dogmática deste Concílio. O Frei e depois Bispo, Boaventura Kloppenburg, na Introdução Geral dos Documentos do Concílio afirma que, tal como a Dei Verbum, a Lumen Gentium é dogmática porque “teve a intenção formal de ensinar, propor doutrinas e mesmo doutrinas novas” [1]. Com o texto consolidado, o Documento foi aprovado e solenemente promulgado pelo Papa Paulo VI em 21/12/1964, porém a novidade deste Documento provocou, e provoca até hoje, uma certa dificuldade de aceitação dentro da própria Igreja.

A LG está  dividida em 8 capítulos: I – O Mistério da Igreja; II – O Povo de Deus; III – A Constituição Hierárquica da Igreja e em especial o Episcopado; IV – Os leigos; V – Vocação Universal à Santidade na Igreja; VI – Os Religiosos; VII – A Índole Escatológica da Igreja Peregrina e sua União com a Igreja Celeste; e VIII – A Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no Mistério de Cristo e da Igreja. Neste estudo, eles serão tratados em cinco Fichas assim nomeadas: I) Introdução e O Mistério da Igreja; II) O Povo de Deus; III) Uma Igreja Ministerial;  IV) Vocação à santidade e índole escatológica da Igreja; V) A Bem-Aventurada Virgem.

Capítulo I – O Mistério da Igreja

O primeiro capítulo da LG aborda o Mistério da Igreja, afirmando que “Cristo é a luz dos povos” cuja claridade resplandece na face de uma Igreja que se mostra em Cristo, ao mundo, como sacramento ou sinal, e também como instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano. “E, retomando os ensinamentos dos Concílios anteriores, ela deseja oferecer aos seus fiéis e a todo o mundo, um ensinamento mais preciso sobre sua natureza e sua missão universal” (LG1). Ao expor que “as presentes condições do mundo tornam ainda mais urgente este dever da Igreja, a fim de que todos os homensalcancem também a unidade total em Cristo”, a LG assume a necessidade de dialogar com a modernidade, com as demais confissões cristãs e com as religiões não cristãs.

Aborda também o Plano Divino para a salvação, pela bondade, sabedoria, e vontade livre e insondável do Pai Eterno ao criar o mundo, decidindo elevar os homens à participação da sua vida divina, não os abandonando quando pecaram em Adão, mas sempre lhes proporcionando auxílios necessários para se salvarem, na perspectiva de Cristo Redentor, Aquele que cumprindo a vontade do Pai Eterno em plena obediência aos seus desígnios, instaurou na Terra o Reino dos Céus cujo mistério nos revelou e consumou a redenção resgatando o gênero humano, oferecendo a salvação (LG2).

A Igreja, ou seja, o Reino de Cristo, já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus. Ela é parte do plano de salvação de Deus. Ela não é nossa, é de Deus. Sua missão é ser o lugar, o espaço, a comunidade onde a humanidade pode encontrar Deus em Jesus Cristo e ser santificada no seu Espírito Santo. Por isso, a Igreja, preparada pelo Pai, fundada pelo Filho e continuamente santificada pelo Espírito, é semente do Reino de Deus que nela já atua misteriosamente. É nela que se experimenta, de modo mais intenso,  o Reino trazido por Jesus!

Tal começo e crescimento da Igreja, são expressos no Sangue e na Água que brotaram do lado aberto de Jesus crucificado (Jo 19,34), e anunciadosnas palavras do Senhor acerca da Sua morte na cruz: «Quando Eu for elevado acima da terra, atrairei todos a mim» (Jo, 12,32). Sempre que no altar se celebra o sacrifício da cruz, na qual «Cristo, nossa Páscoa, foi imolado» (1Cor 5,7), realiza-se também a obra da nossa redenção. Pelo Sacramento do Pão Eucarístico, ao mesmo tempo, é representada e se realiza a unidade dos fiéis, que «constituem um só corpo em Cristo» (1Cor 10,17). Todos os homens são chamados a esta união com Cristo, luz do mundo, do qual vimos, por quem vivemos, e para o qual caminhamos (LG3).

Consumada a obra confiada ao Filho, Deus envia o Espírito Santo para santificar a Igreja que nascia, para assim dar acesso aos crentes até o Pai, por Cristo, num só Espírito. Pelo Espírito da vida, fonte que jorra para a vida eterna, o Pai dá vida aos homens mortos pelo pecado, até que um dia ressuscitem em Cristo seus corpos mortais. Este Espírito que habita na Igreja e no coração dos fiéis, como num templo, leva a Igreja ao conhecimento da verdade total, unificando-a na comunhão e no mistério, dotando-a e dirigindo-a com os diversos dons hierárquicos e carismáticos, embelezando-a com seus frutos e rejuvenescendo-a com a força do Evangelho (LG4). Enriquecida pelos dons de seu Fundador, a Igreja recebe a missão de anunciar e estabelecer em todas as gentes, o Reino de Cristo e de Deus, se constituindo, ela própria, na Terra, o germe e o início deste Reino.

O mistério da Santa Igreja manifesta-se na sua fundação. O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a Boa Nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras: «cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo» (Mc 1,15; Mt 4,17). Este Reino manifesta-se na palavra, nas obras e na presença de Cristo (LG5).

A Igreja nos dá a conhecer sua natureza íntima, servindo-se das várias imagens vislumbradas na Sagrada Escritura: como redil, cuja única e necessária porta é Cristo (Jo 10,1-10); como rebanho, do qual o próprio Deus é Pastor em Cristo (Jo 10,11; 1Ped 5,4); como lavoura ou campo de Deus (1Cor 3,9), onde cresce a oliveira antiga, cuja raiz santa são os patriarcas e da qual se obteve e se completará a reconciliação dos judeus e dos gentios (Rom 11,13-26); como construção de Deus (1Cor 3,9), na qual Cristo se comparou à pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou a pedra angular (Mt 21,42); e, ainda, como Jerusalém celeste e Nossa Mãe (Gál 4,26) descrita no Livro do Apocalipse (19,7; 21,2.9; 22,17) como a “Esposa Imaculada” do Cordeiro Imaculado (LG6).

Refere-se, ainda, como Corpo Místico de Cristo (1Cor 12,13) cuja Cabeça é o próprio Cristo e cujos membros são seus filhos configurados com Cristo pelo Batismo, formando o corpo da Igreja. Entre os membros existe a diversidade de funções, e esta diferença provém dos dons do Espírito Santo que os distribui conforme as necessidades da Igreja para formarem um corpo único, assim como o corpo humano, cujos membros devem se conformar com a Cabeça, que é o Cristo Senhor, imagem do Deus invisível (LG7).

Cristo como mediador único, constitui e sustenta indefectivelmente [2] a sua Igreja Santa sobre a terra, como organismo visível, comunidade de fé, de esperança e de amor e, por meio dela, comunica a todos a verdade e a graça (presença de Deus nos homens). No entanto, esta Igreja é uma sociedade dotada de órgãos hierárquicos, além de ser também o corpo místico de Cristo; é uma assembleia visível e uma comunidade espiritual. A Igreja terrestre e a Igreja ornada com os dons celestes não devem ser consideradas como duas entidades, mas como uma única realidade complexa, formada pelo duplo elemento humano e divino. É, portanto, ao mesmo tempo uma Igreja visível e espiritual, que continua seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, anunciando a cruz e a morte do Senhor, até que Ele venha e se manifeste em luz total na Parusia [3], final dos tempos (LG8).


[1]  Kloppenburg, B., Introdução Geral aos Documentos do Concílio, Compêndio do Vaticano II,  1968, Ed. Vozes,  4 ed. p. 17.

[2] Indefectivelmente – Que não pode falhar ou deixar de ser: apoio indefectível. Certo, infalível.

 [3] Parusia – Segunda vinda de Cristo; termo usualmente empregado com a significação religiosa da “volta gloriosa de Jesus Cristo, no final dos tempos, para presidir o Juízo Final” (Dn 7,13-14; Mt 24,29-31). Fonte: Wikipédia – Para mais informações: Eucaristia é Parusia e ParusiaA Segunda Vinda de Cristo.

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E-referências

Costa, Henrique Soares da,  A Lumen Gentium.

CNLB, Igreja  Mistério.

Para refletir:

1) Sendo Jesus Cristo a Luz dos povos, em que perspectiva a Igreja pode também ser assim chamada (Luz dos povos)?

2) Partindo do pressuposto que a Lumen Gentium nos proporcionou uma nova visão da Igreja e de seu relacionamento com o mundo, a você parece importante ou necessário que ela seja conhecida, difundida e estudada?  Após este estudo sobre a Constituição Lumen Gentium, o que você destaca de importante para a vida dos fiéis e da Igreja, e por quê?

3) Das várias imagens da Igreja que a Lumen Gentium nos apresenta, qual delas melhor a identifica para você e por quê? Você acrescentaria alguma outra imagem com a qual a Igreja pudesse ser apresentada?

 

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Aguarde a publicação da próxima ficha: 23 de Novembro: O Povo de Deus (BLOCO 03 – Tema: Lumem Gentium)

 

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