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Ficha 96 – A Misericórdia – Expressão da Revelação de Deus (2ª)

| 28/10/2015 | 0 Comentário

F.96A Bula Misericordiae Vultus inicia-se com a afirmação cristológica: “Jesus Cristo, o rosto da misericórdia do Pai, é a síntese da fé cristã”. Para melhor compreensão do tema, o papa Francisco apresenta quatro definições de “misericórdia”: palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade; ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro; a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida; o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado.

A palavra surge como tradução do hebraico “hesed” (bondade de Deus), significando um ato gratuito e espontâneo de amor e bondade, e estaria associado ao termo rahamîm (entranhas), portanto, mais carregado de emoção (compaixão). Falar em “misericórdia divina” seria, portanto, dizer que Deus está sentindo, nas entranhas, a dor causada pelo pecado da humanidade, o qual atinge a todos, suscitando n`Ele, continuamente, um olhar e uma ação voltados para os que se assumem necessitados, os que se encontram aflitos e desesperados, e suplicam a sua misericórdia (Mateus 5,1-12).

Das definições apresentadas pelo papa Francisco, a misericórdia sempre parte de uma ação de Deus, pois é Ele quem a colocou no coração humano como uma lei fundamental que leva o homem a ter compaixão de seus irmãos de caminhada e, por conseguinte, o une a Deus: Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso (Lucas 6,36).

Na Bíblia, a palavra misericórdia aparece mais de cento e sessenta vezes, na maioria delas atribuída à misericórdia de Deus para com a humanidade. É nesse imenso manancial que o papa buscou a fundamentação para a Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. (Para saber mais sobre a misericórdia na Bíblia acesse aqui)

Ao abordar passagens do Antigo Testamento, a Bula ressalta o binômio “paciente e misericordioso” para descrever a natureza de Deus, revelando misericórdia divina a partir da bondade do Criador que prevalece sobre o castigo e a destruição. É o que se destaca, por exemplo, na proclamação dos dez mandamentos”, em Êxodo 20,6: “… uso de misericórdia por mil gerações para com os que me amam e guardam meus mandamentos”. Em Números 14,19 vemos o apelo de Moisés: “Perdoa pois, o pecado deste povo segundo a tua grande misericórdia”, e o Segundo Livro de Reis 13,23 relata: “O Senhor teve misericórdia dos israelitas e voltou-se para eles”.

Entretanto, é nos Salmos que a misericórdia sobressai como expressão do grande amor do agir divino, que se manifesta em ações concretas de perdão, cura, ajuda e proteção, e o papa refere-se a vários, dentre os quais podemos ler: 103(102): “É Ele quem perdoa as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades. É Ele quem resgata a tua vida do túmulo e te enche de graça e ternura”; 146(145),7-9: ”O Senhor liberta os prisioneiros. O Senhor dá vista aos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama o homem justo. O Senhor protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfão e a viúva, mas entrava o caminho aos pecadores”; 147(146/147) “[O Senhor] cura os de coração atribulado e trata-lhes as feridas. […] O Senhor ampara os humildes, mas abate os malfeitores até ao chão”. O papa ressalta que o Salmo 136(135), ao narrar a história da revelação, a cada versículo repete o refrão “Eterna é sua misericórdia”, mostrando que em virtude da misericórdia os acontecimentos do Antigo Testamento aparecem cheios de um valor salvífico.

A misericórdia encontra seu ápice no Novo Testamento, quando, num ato de extrema compaixão, Deus assume a natureza humana para redimir a humanidade. Jesus é a personificação da misericórdia e sua missão foi revelar o mistério do amor divino em sua plenitude. A Primeira Carta de São João 4,8.16 afirma que “Deus é amor”. Jesus é a prova concreta dessa afirmativa, como vemos no Evangelho de Mateus: “Vendo que a multidão de pessoas que O seguia estava cansada e abatida, Jesus sentiu, no fundo do coração, uma intensa compaixão por elas” (9,36). Em virtude desse amor compassivo, curou os doentes que Lhe foram apresentados (14,14); e, em 15,37, com poucos pães e peixes, saciou grandes multidões.

Especialmente nas parábolas, histórias que Jesus contava ao povo e a seus discípulos para que eles compreendessem melhor sua mensagem, sobressai a natureza de Deus como a de um Pai que nunca se cansa de perdoar, mesmo quando sua compaixão e misericórdia são recusadas. Na primeira delas, conhecida como a da “ovelha perdida”, Jesus resume a alegria do Pai por cada pecador convertido (Lucas 15,3-7); na segunda, “a moeda perdida”, compara a alegria dos anjos por um só pecador que se converte, com a da mulher que encontra uma moeda de prata perdida (Lucas 15, 8-10); na terceira, a mais significativa de todas, destaca o pai misericordioso que perdoa e acolhe o filho pródigo que dissipou todos os seus bens (Lucas 15,11-30). Em Mateus também encontramos belas parábolas falando da misericórdia, como por exemplo, quando Pedro interroga sobre o perdão e Jesus responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”, e conta a parábola do servo sem compaixão que tendo sido perdoado de grande divida não foi capaz de perdoar a quem lhe devia algumas moedas (Mateus 18,21-35). Portanto, Jesus nos indica o caminho da misericórdia, do perdão e do amor como um ideal de vida e critério de credibilidade para a fé, conforme anunciado nas bem aventuranças: “Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mateus 5,7).

A data de início do Ano Santo marca o 50º aniversário de conclusão do Concílio Vaticano II, que legou à catolicidade 16 importantes documentos, marcando uma nova etapa na vida da Igreja, do Povo de Deus. Relembra o Papa Francisco as palavras de São João XXIII na abertura do Concílio: “Nos nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade. […] A Igreja Católica, […] deseja mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e bondade com os filhos dela separados?”. Seguindo o mesmo raciocínio o beato Papa Paulo VI reforçou que misericórdia foi a palavra-chave do Concílio. Especialmente na conclusão do Concílio ele disse: “Desejamos notar que a religião do nosso Concílio foi, antes de mais nada, a caridade. […] Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio. […] Uma corrente de interesse e admiração saiu do Concílio sobre o mundo atual. Rejeitaram-se os erros, como a própria caridade e verdade exigiam, mas os homens, salvaguardado sempre o preceito do respeito e do amor, foram apenas advertidos do erro. Assim se fez, para que, em vez de diagnósticos desalentadores, se dessem remédios cheios de esperança e palavras de confiança. […] Uma outra coisa julgamos digna de consideração: toda esta riqueza doutrinal orienta-se apenas a isto: servir o homem, em todas as circunstâncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas necessidades”.

Verifica-se, portanto, que a misericórdia se concretiza, também, na vida da Igreja de Cristo, e ressurge no magistério eclesial agraciada pelo dom do Espírito Santo de ser fiel ao seu Fundador. “Eterna é a sua misericórdia.”

Dos documentos produzidos pelo Concílio, merece destaque nessa ocasião, a Constituição Dogmática Dei Verbum (DV) (1965) sobre a Revelação divina. Nela se manifesta também a misericórdia conciliar, pois seu maior objetivo foi o de difundir a Palavra de Deus, cumprindo o desejo de Jesus Cristo: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura” (Marcos 16,15).

Depois de 45 anos de caminhada, iluminada por esse documento conciliar (DV), a Exortação PósSinodal Verbum Domini (2010), do Papa Bento XVI, continua afirmando que Deus se revela na História, e a Sagrada Escritura é a grande Luz para compreender os apelos de Deus em nossa história. A justificativa utilizada pelo papa Francisco, para convocar um novo Ano Santo, deve ser visto como sinal de Deus para nosso tempo. Segundo ele: “Há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai. Foi por isso que proclamei um Jubileu Extraordinário da Misericórdia como tempo favorável para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes”.

Conclui-se, portanto, que a Bula Papal faz uma síntese extraordinária da Palavra de Deus e do Magistério sobre a misericórdia, sugerindo que os discípulos misericordiosos se aprofundem no estudo da Sagrada Escritura, nela possam encontrar o rosto de um Pai que é misericordioso ao extremo com seus filhos amados, e que deem testemunhos, como sinal desse amor.

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Para Refletir:

  1. Por que o estudo/reflexão sobre a Revelação ajuda a desenvolver a espiritualidade da misericórdia?
  2. Dentre as parábolas sobre a Misericórdia qual lhe parece mais desafiadora para a Igreja? Por quê?

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