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Ficha 73 – O Trabalho Humano – Aspectos Bíblicos – DSI (18ª)

| 15/10/2014 | 0 Comentário

F.73Esta ficha inicia a reflexão de um dos temas mais tradicionais da DSI: o Trabalho Humano que, desde a encíclica Rerum Novarum, é apresentado numa perspectiva antropológica, isto é, o trabalho existe em função da pessoa humana. Tem por base os tópicos I e II do Capítulo VI da DSI, que aborda a espiritualidade do trabalho humano apresentada na Bíblia a qual, desde o Livro do Gênesis, nos ensina que ele constitui uma dimensão fundamental da existência humana; além do valor profético da Rerum Novarum, que inaugurou uma nova fase na relação da Igreja com o mundo secular ao se manifestar sobre questões sociais, entre elas a dignidade do trabalho humano.

Aspectos Bíblicos

1. O dever de cultivar e guardar a terra

“Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou” e lhe confiou a tarefa de “submeter a terra e de dominar sobre todo ser vivente” (cf. Gn 1,27-28). Tal domínio significa “cultivar e guardar” (cf. Gn 2,15) os bens criados por Deus, recebidos pelo homem como um dom precioso e que foram colocados sob a sua responsabilidade pelo Criador para que deles cuidasse como um rei sábio cuida do seu povo e um pastor, do seu rebanho.

O trabalho faz parte da vocação humana e o Criador dá a todo homem um conjunto de aptidões e qualidades (ou habilidades), inteligência e liberdade para que com o seu trabalho possa garantir seu sustento com dignidade. É, pois, dom de Deus que a pessoa possa desfrutar o fruto do seu trabalho, daquilo que realmente ele vale: vida, saúde, moradia, satisfação, família. Esse proveito é dom de Deus! (Ecl 3,l3).

A razão humana, o trabalho, os bens da natureza e os bens produzidos pela capacidade humana só podem ser úteis ao homem se estiverem a serviço da promoção da sua dignidade, o que o torna verdadeiramente realizado e feliz. O trabalho é essencial, mas a fonte da vida e o fim do homem é Deus. Toda atividade e empenho humanos em melhorar sua condição de vida devem ser honrados, pois isso corresponde ao plano de Deus. Esse plano supõe que sempre se leve em consideração o próximo, a família e a sociedade, além das exigências do direito e da justiça, já que o temor ao Senhor e a justiça precedem ao lucro: “Vale mais o pouco com o temor do Senhor, que um grande tesouro com a inquietação” (Pr 15,16).

Ápice do ensinamento bíblico sobre o trabalho é o mandamento do repouso, seja ele oferecido no domingo ou em outro dia, mas que permita às pessoas recordar e reviver as obras de Deus, agradecê-Lo pela própria vida e subsistência, afinal é Ele que garante as forças com as quais podemos trabalhar.

 2. Jesus, homem do trabalho

Jesus de Nazaré confirmou com sua vida, sua mensagem e sua missão o projeto de amor que Deus tem para com o mundo e para com suas criaturas. Ele é o Filho de Deus que se fez trabalhador, filho do carpinteiro, vivenciando o trabalho na oficina de seu pai adotivo José (cf. Mt 13,55; Mc 6,3), a quem estava submisso.

Para Jesus o trabalho tem dignidade, tanto que ele o colocou como parte da própria dinâmica da Santíssima Trindade: comparou Deus Pai, Criador do mundo, a um agricultor (cf. Jo 15,1); descreveu a Sua própria missão como exercício de um trabalho: “Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho” (Jo 5,17); e mencionou o trabalho do Espírito Santo ao como o de um defensor, advogado e pedagogo  (Jo 16,4-15). Para Jesus, o trabalho é uma atividade voltada diretamente para a vida. É o cuidado da vida, por isso disse: “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (Jo 10,10), vida plena que acontece em todas as situações: no campo ou na cidade, no estudo, no lazer, na política, no dia a dia e no trabalho.

 3. O dever de trabalhar

O trabalho é parte integrante da condição humana, mesmo não sendo a única razão de vida. O homem deve trabalhar, quer pelo fato da sua mesma humanidade o exigir, ou em virtude de sua necessidade de subsistência e desenvolvimento. Como disse São João Paulo II: “Quando trabalha, o homem não transforma apenas as coisas materiais e a sociedade, mas realiza-se a si mesmo, além de criar sociabilidade entre as pessoas e o mundo” (Laborem Exercens, 10).

Ninguém, pelo fato de pertencer a uma comunidade deve sentir-se no direito de não trabalhar e de viver à custa dos outros (2Ts 3, 6-12); todos, antes, são exortados pelo Apóstolo Paulo a tomar como ponto de honra o trabalhar com as próprias mãos (1Ts 4,11-12) e a praticar a solidariedade também material, compartilhando os frutos do trabalho com “os necessitados” (Ef 4,28). São Tiago defende os direitos desprezados dos trabalhadores: “Eis que o salário, que defraudastes dos trabalhadores que ceifavam os vossos campos, clama, e seus gritos dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos” (Tg 5, 4). Os cristãos devem viver o trabalho com o estilo de Cristo e torná-lo ocasião de testemunho cristão “em presença dos de fora” (1Ts 4, 12). Afinal, o ambiente de trabalho é campo para a evangelização, oportunidade de realizar um processo de aperfeiçoamento de si mesmo e da sociedade, oportunidade de construir o Reino de Deus. As mãos que aprendem a manipular a matéria e a tecnologia devem estar aptas a transformar a mente e o espírito.

 O valor profético da Rerum Novarum

O curso da história está marcado por profundas transformações e por significativas conquistas no mundo do trabalho, mas também pela exploração de tantos trabalhadores e pelas ofensas à sua dignidade. A revolução industrial lançou à Igreja um grande desafio, ao qual o Magistério social respondeu afirmando princípios de valor universal e de perene atualidade, em favor do homem que trabalha, seja no campo ou na indústria, e de seus direitos.

Com o êxodo rural, a vida que era marcada por ritmos regulares e cíclicos se tornou mais dinâmica no contexto urbano; o Evangelho deveria ser anunciado e vivido num novo areópago, no tumulto dos acontecimentos sociais, levando em conta a complexidade dos novos fenômenos e das impensáveis transformações propiciadas pela técnica. Nesse contexto, impunha-se com urgência, como preocupação pastoral para a Igreja, a questão operária, ou seja: o problema da exploração dos trabalhadores, em virtude de a nova organização industrial ser de matriz capitalista, além da instrumentalização ideológica das justas reivindicações trabalhistas.

No seio desse horizonte histórico, colocam-se as reflexões e as advertências da encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, uma clara defesa da inalienável dignidade dos trabalhadores que apresenta o trabalho numa perspectiva antropológica, isto é, o trabalho existe em função do homem. Daí afirmar o primado do trabalho sobre o capital. Suas orientações reforçam o empenho de animação cristã da vida social, que se manifestou no nascimento e na consolidação de numerosas iniciativas de alto caráter civil: uniões e centros de estudos sociais, associações, sociedades operárias, sindicatos, cooperativas, bancos rurais, seguros, obras de assistência. Tudo isso deu um notável impulso à legislação do trabalho para a proteção dos operários, sobretudo das crianças e das mulheres, bem como à instrução e à melhoria dos salários e da higiene.

Desde então, a Igreja jamais deixou de considerar os problemas do trabalho no contexto de uma questão social que foi progressivamente assumindo dimensões mundiais. A encíclica Quadragesimo Anno lembra que o salário deve garantir a sobrevivência do trabalhador e de sua família. Na sequência das encíclicas Mater et Magistra e Pacem in Terris, o Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, colocou a dignidade do ser humano como eixo das relações de trabalho, e, consequentemente, da vida econômica e social: “a dignidade do ser humano, com sua vocação integral, bem como de toda a sociedade, deve ser respeitada e promovida, pois o homem, com efeito, é o autor, centro e fim de toda a vida econômico-social” (GS, 63), tema que foi retomado na encíclica Populorum Progressio.

A encíclica Laborem Exercens, destaca a dimensão social do trabalho e enriquece a sua visão personalista, característica dos precedentes documentos sociais, indicando a necessidade de um aprofundamento dos significados e das tarefas que o trabalho comporta, em consideração do fato de que “surgem sempre novas interrogações e novos problemas, nascem novas esperanças, como também motivos de temor e ameaças”, ligados ao trabalho, “chave essencial” de toda a questão social, que condiciona o desenvolvimento não só econômico, mas também cultural e moral das pessoas, da família, da sociedade e de todo o gênero humano.

 Toda a DSI representa uma atualização da dimensão sociotransformadora do Evangelho nas diferentes etapas da história humana, ou seja, uma forma de traduzir a Boa Nova de Jesus Cristo diante de cada momento e de cada desafio. Recentemente, a exortação Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, alerta-nos sobre a dimensão social da evangelização, e lembra o quanto incomoda que se fale de ética, de solidariedade mundial, de distribuição dos bens, de defender os postos de trabalho, enfim, o quanto incomoda que se fale de um Deus que exige um compromisso em prol da justiça (EG, 203). Fica para nós a pergunta: quais as implicações sociais e políticas que a leitura e o anúncio do evangelho nos aponta?

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 Para refletir:

1. Como deve se comportar o trabalhador ou empregador cristão diante dos desafios do mundo do trabalho?

2. Como deve se posicionar a Igreja, como organização, nos conflitos gerados no mundo do trabalho?

3. Você está feliz com o seu trabalho? “Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se cansa debaixo do sol?” (Ecl 1,2)

 

Orientações para a Interação:

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 Aguarde a publicação da próxima ficha: 29/10/14 – Ficha 74:  A dignidade do trabalho – DSI (19ª)

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