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Ficha 70 – A Solidariedade, a caridade e os valores fundamentais da DSI – (15ª)

| 03/09/2014 | 0 Comentário

F.70As últimas fichas abordaram os três princípios permanentes da DSI: dignidade da pessoa humana, o bem comum e a subsidiariedade. Nessa, o foco recairá sobre o último deles: o princípio da solidariedade que, junto com os demais, constitui o eixo principal do ensinamento social católico. Além dos princípios, o capitulo IV do Compêndio aborda também os valores fundamentais da DSI: a verdade, a liberdade e a justiça e, por fim, apresenta a virtude da caridade como uma necessidade para o desenvolvimento de qualquer sociedade.

Entende-se a solidariedade como um ato de bondade para com o próximo, ou um sentimento que indica união de simpatias, interesses e propósitos entre os membros de um grupo ou de uma sociedade. Mas, para além de um sentimento, ela indica a atitude de alguém para com os que sofrem ou estão privados de alguma necessidade. Na modernidade, ela se faz presente nas questões decorrentes da divisão de trabalho, entre aqueles que estão nas mesmas condições de exploração. Desse modo, a solidariedade não é imposta, mas voluntária, na medida em que cada pessoa percebe que pode contribuir para com o grupo o que, no fim, resulta na compreensão de que todos se beneficiam quando há colaboração de todos. Ao aplicarmos tal reflexão à vida política da sociedade, percebemos que os cidadãos devem contribuir com a construção de um mundo melhor do qual ele também se beneficiará. Essa nova percepção da solidariedade é bastante próxima da prática proposta por Jesus Cristo e dos ensinamentos sociais da Igreja. Embora tal palavra não exista na bíblia, é possível encontrar muitas outras que expressam atitudes semelhantes, tais como: compaixão, misericórdia, amor, oblação, serviço, as quais estão contempladas, na DSI, na perspectiva da Dignidade Humana.

 O princípio da solidariedade

a) Significado e valor:

Na Doutrina Social da Igreja, solidariedade significa o acolhimento e o respeito pelo outro em sua dignidade, possuindo dimensão social e coletiva: “o dever da solidariedade é o mesmo, tanto para as pessoas como para os povos” (PP, 48). Como valor cristão, encontra sua máxima expressividade na parábola do samaritano (Lc 10, 15-37). Vale dizer, que o homem caído à beira do caminho é o pobre, o fraco, o excluído, aquele que foi privado dos seus direitos mais fundamentais como pessoa humana. Por isso, a solidariedade torna-se critério normativo para sanear toda a convivência social e recompor o projeto original de Deus para a humanidade.

Não se pode ignorar que a sociabilidade e interdependência entre os homens, povos e nações, quando ausente a solidariedade, fazem aflorar diversas formas de exploração e opressão, provocando desigualdades entre países e mesmo entre camadas da população de um mesmo país, principalmente quando há corrupção e desonestidade política. Por outro lado, esses sinais criam condições para o compromisso solidário de homens e mulheres, independente de sua crença e condição social, que pode ser concretizado na mão estendida ao outro nas situações de emergência, de carência, de pobreza, de fome; Assim, um gesto, um mutirão, uma campanha constituem expressões vivas de solidariedade.

 b) A solidariedade como princípio social e como virtude moral

Para a DSI, a humanidade deve transformar as relações em uma verdadeira e própria solidariedade ético-social, que se apresenta sob dois aspectos complementares: a solidariedade como princípio social e a solidariedade como virtude moral.

No primeiro, a ação solidária deve impregnar as instituições humanas, com a finalidade de superar o que a DSI chama de “estruturas de pecado” (presentes nas relações pessoais e na sociedade), transformando-as em estruturas de solidariedade através da criação ou modificação das legislações vigentes, das regras de mercados e dos ordenamentos jurídicos, em vista da construção de um mundo melhor. No segundo, como virtude moral, deixa de ser apenas um sentimento de compaixão, e surge no sentido de responsabilidade recíproca pelo bem da humanidade, como atitude firme e determinada no empenho pelo bem de todos e de cada um, ou seja, pela preservação do bem comum.

 c) Solidariedade e crescimento comum dos homens

A mensagem da DSI é clara ao destacar que a solidariedade está vinculada com o bem comum, com a destinação universal dos bens, com a igualdade entre os homens e os povos, e com a paz no mundo, pois está para além de todo individualismo e particularismo (SRS 17,39.45). Contra a lógica do individualismo e da acumulação, propõe a solidariedade entendida como a disponibilidade para com o outro, principalmente, com os mais fragilizados. A regra de ouro, que no cristianismo se torna positiva, lembra que “tudo quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o vós também a eles” (Mt, 7.12), ou seja, deve-se partilhar solidariamente o patrimônio imaterial e material da humanidade no hoje da história, sem exclusão de ninguém, para que o dom do Reino seja uma realidade para as gerações futuras.

  d) A solidariedade na vida e na mensagem de Jesus Cristo

A DSI apresenta a solidariedade a partir da mensagem evangélica d’Aquele que se fez homem, demonstrando compaixão infinita ao assumir as enfermidades e as fraquezas do povo, ao caminhar a seu lado e levar ao caminho da salvação, através da recriação da vida social como lugar de vida e esperança. Nesse contexto, a solidariedade deve levar necessariamente à descoberta do outro, não só como seu semelhante e seu próximo e como imagem viva de Deus-Pai, mas também como reflexo de si mesmo.

A prática de Jesus revela uma nova visão da solidariedade, fundamentada na caridade, na gratuidade total, no perdão e na reconciliação. Ele nos ensina que o outro, por pior que nos possa parecer, mesmo que seja nosso inimigo, deve ser amado. Não se trata aqui de simples gostar, de simpatia, mas, sim, do querer amar incondicionalmente, porque é assim que Deus ama.

 Os valores fundamentais da vida social

a) Relação entre princípios e valores

A DSI elenca os valores sociais fundamentais inerentes à dignidade da pessoa, que devem permear toda a vida humana: a verdade, a liberdade, a justiça, o amor. Todos favorecem um autêntico desenvolvimento das relações interpessoais, criando uma ordem social que permite uma convivência mais humana. Não obstante o fato de a Igreja não atuar diretamente no campo das estruturas temporais (políticas, econômicas, culturais e tecnológicas), o seu seguimento a Jesus não a impede, mas, ao contrário, estimula-a a se pronunciar sobre tais questões, denunciando as injustiças e apontando caminhos para que imperem a liberdade, a justiça e o amor entre os homens.

 b) A verdade

A palavra “verdade”, do latim veritas, significa conformidade com o real, ou seja: correspondência entre o pensamento ou a sua expressão e o objeto de pensamento. No Evangelho de João, Pilatos pergunta a Jesus: O que é a verdade? (Jo 18,38). Desse diálogo, podemos inferir que para Jesus, ser rei era ser fiel ao Pai, ou seja, ter coerência com as normas traçadas por Deus; e, para Ele, essa era a realidade, a verdade. É essa a verdade que a Igreja prega.

O Catecismo da Igreja Católicaafirma que “o homem tende naturalmente para a verdade, com a obrigação de honrá-la, respeitá-la e testemunhá-la” (CA 2467). Portanto, viver na verdade tem, para o cristão, um significado muito profundo e é critério para o relacionamento social e comunitário. É através da verdade que a dignidade das pessoas é respeitada, gerando soluções para os diversos problemas, conforme as exigências da ética e da moral, evitando-se o arbítrio.

 c) A Liberdade

O valor da liberdade consiste no dom divino expresso na singularidade de cada pessoa, que tem o direito natural de ser reconhecida como ser livre e responsável, o que lhe confere dignidade humana. Todos se devem respeito, na medida em que se consente a cada um realizar sua vocação pessoal, buscar a verdade, professar e manifestar suas convicções religiosas, culturais e políticas, decidir o próprio estado de vida e a forma de ganhá-la como fruto do seu trabalho. Por outro lado, consiste, também, na recusa do que é moralmente negativo, bem como, no desapego de tudo o que impede o crescimento pessoal, familiar e social, principalmente em tempos de pós modernidade, em que todos os valores são relativizados. Ela não deve ser entendida em sentido individualista, o que a reduziria ao exercício arbitrário e incontrolado da própria autonomia pessoal, pois ela só existe verdadeiramente quando laços recíprocos, regidos pela verdade e pela justiça unem as pessoas (LC 26). A liberdade torna-se ampla e profunda mediante a capacidade da pessoa em dispor de si em vista do bem comum universal (PT, 289-290).

 d) A Justiça

Segundo a encíclica Pacem in Terris, como critério de moralidade nato do ser humano, é uma virtude fundamental para o bem da sociedade. Ela é o parâmetro para a justiça legal, a aplicação de leis e normas criadas pelo homem para reger a vida em sociedade e que, muitas vezes, apresentam-se como injustas, na medida em que beneficiam certas camadas ou grupos sociais, em detrimento de outros (PT 282-283).

A DSI lembra que, das formas clássicas da justiça, a mais urgente e necessária é a justiça social, pois, sem ela, não há evangelização que garanta o efetivo direito de todos aos seus benefícios. Isso se aplica especialmente aos pobres, que, muitas vezes, não são vistos sequer com direito à justiça objetiva. Em tempos de globalização, a exigência da justiça social se coloca em escala internacional, pois não há como garantir a justiça em determinado lugar sabendo que em outro, pessoas e grupos sociais inteiros clamam por esse direito.

No momento em que verdades são relativizadas e virtudes e normas morais se identificam como frutos da pós-modernidade, a justiça objetiva é condição necessária para garantir o acesso às capacidades básicas dos cidadãos, a fim de serem considerados dignos. Entretanto, São João Paulo II ensinou que, embora necessária, para a DSI, a noção da justiça não pode ser reduzida ao cumprimento da lei, pois a legalidade social não é sinônimo de justiça. O que é “justo” não é originariamente determinado pela lei, mas pela identidade profunda do ser humano que busca o sumo bem (SRS, 40). Nessa visão, a justiça se coloca no horizonte da solidariedade e do amor, pois o ser humano, na efetivação de sua vocação de buscar o sumo bem, é chamado cotidianamente a praticar atos de solidariedade e amor para com seus irmãos. O papa afirmou também que assim se constrói uma cultura de paz, pois tais atos revelam sinais da presença e da justiça de Deus, que, por meio dos homens, provê a necessidade de seus filhos. (Mensagem para a celebração do Dia Mundial da Paz 2004). Para ele, “a paz é o fruto da solidariedade” (SRS, 39), o que, em última análise, é a realização da justiça social que aspira por uma sociedade nova e um mundo melhor.

A virtude da Caridade

O tema da caridade, a mais importante dentre as virtudes teologais, é o último tópico do IV capítulo sobre os princípios da DSI. Ela é o critério supremo e universal de toda a ética social (1 Cor 12,31). A justiça é importante para o desenvolvimento da sociedade, mas é a caridade que a fundamenta na vivência, plasmando a vida humana nas suas várias dimensões.

A caridade se apresenta como a verdadeira justiça diante da justiça legal e objetiva provando que o amor tem que superar a justiça legal.

Por isso, a DSI recorda que somente o apelo da justiça não é suficiente para construir a paz, dado que, muitas vezes, a justiça, como produto humano, não consegue praticar a justiça devida.

Assim, a caridade se coloca como proposta para a construção de outro mundo, não mais com base, apenas, nos acordos sociais dos homens. Essa é a proposta de Jesus, a proposta do reino de Deus.

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 Para Refletir:

1) Após leitura do texto, qual foi sua percepção sobre o princípio da solidariedade? Qual deve ser o caráter social e coletivo desse princípio?

2) Qual(is) dos valores fundamentais da vida social você julga mais importante praticar. Por quê?

3) De que forma a vivência da virtude da caridade se conecta com o princípio da solidariedade?

 

Orientações para a Interação:

a) Você poderá  discutir este texto, presencialmente,  com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários logo abaixo deste texto.

c) Por fim, você poderá interagir na sala de aula virtual   “Ambiente Virtual de Formação” da Arquidiocese.  Acesse http://www.avf.org.br/ e siga as orientações.

Aguarde a publicação da próxima ficha: 17/09/14-  Ficha 71 – Família: sociedade natural – DSI (16ª)

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