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Ficha 64 – A integralidade da pessoa DSI (9ª)

| 04/06/2014 | 7 Comentários

F.64Em continuidade ao estudo sobre a pessoa e seus direitos, iniciado na Ficha anterior: A pessoa humana: “Imago Dei”, esta Ficha abordará o tópico: “A pessoa humana e seus vários perfis”, do 3º capítulo da DSI. Esta reflexão é fundamental porque, ainda hoje, vários fatores sociais, políticos e econômicos ofuscam e reduzem a integralidade do ser humano atingindo-os em sua dignidade, considerando-o apenas como consumidor, ouvinte, eleitor, fornecedor de mão de obra etc, concepções que sempre foram rejeitadas pela Igreja. Para a teologia a pessoa humana, criada a imagem e semelhança de Deus, é dotada da unidade de alma e corpo, chamada a abrir-se à transcendência, a viver na liberdade, a estabelecer vínculos sociais e a contribuir para a edificação de um mundo que seja sinal do reino definitivo. Para a DSI, essas características que conferem ao ser humano a excelsa dignidade de filhos de Deus. Em razão disso, a Igreja e os cristãos são chamados a defenderem a dignidade humana, valor máximo do ser humano.

 A unidade da pessoa

O homem foi criado por Deus como unidade de alma e corpo. Não se trata de negar a natureza, mas enfatizar que o ser humano carrega em si a centelha divina, por possuir uma alma imortal que é o princípio de unidade do ser humano, aquilo pelo qual ele existe como um todo, tal como se lê em Jo 3,6: “o que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espirito é espírito”. O homem busca sua realização neste mundo como um caminho de crescimento e perfeição espiritual em busca da salvação e da ressurreição na pátria eterna. Neste caminho, o pecado atinge o coração humano, cabendo-lhe exercer vigilância para não se deixar escravizar e não se tornar vítima de uma visão puramente terrena da vida.

 Abertura à transcendência e unicidade da pessoa

A pessoa humana é aberta a Deus, mas também aos seus semelhantes e ao mundo. E, será ela mesma quando se autotranscender e se confrontar com o diferente de si na relação e no diálogo, valorizando e respeitando o outro como sujeito.

Cada pessoa existe como um ser único e irrepetível, com a capacidade de autocompreensão e autodeterminação, pois sendo um ser inteligente e consciente, é responsável pelos próprios atos, tal qual destaca a Encíclica  Veritatis splendor (VS), 48. Portanto, o homem existe antes de tudo como subjetividade, como centro de consciência e de liberdade, as quais não podem ser instrumentalizadas, seja por razões de caráter econômico, científico, social ou político. Por tudo isso, se impõe a exigência do respeito e do cuidado para com cada pessoa e a necessidade do desenvolvimento integral, que deve ser promovido pelas instituições políticas e sociais, e por seus dirigentes. A Gaudium et spes (GS) afirma que toda sociedade existe em função do bem de seus membros, por isso ela só será justa se alicerçada no respeito pela dignidade transcendental da pessoa humana (GS, 1046-1047).

 A liberdade da pessoa

Ao criar a criatura humana à sua imagem, Deus a chamou para a liberdade, entregando em suas próprias mãos a direção de sua vida para atingir o seu crescimento pessoal e contribuir na construção da ordem social. Essa adesão decorre de uma escolha livre e consciente, porém, implica na aceitação da lei moral que Deus dá ao homem. A Revelação destaca que o poder de determinar o bem e o mal pertence somente a Deus, e isso foi infundido na consciência do ser humano pela lei natural [1], e depois pela lei moral, expostas em várias passagens da Sagrada Escritura, especialmente no Decálogo e no Evangelho, as quais o homem deve aceitar para alcançar sua a plena realização. Ao negar a lei moral, o homem prejudica a si mesmo, fere a sua liberdade e, ao mesmo tempo, prejudica seus semelhantes.

O exercício da liberdade implica a referência a uma lei moral natural que precede e unifica todos os direitos e deveres (VS 1173-1174). É ela que liga os homens entre si, na diversidade de culturas, impondo princípios comuns. Como dom de Deus, a lei natural jamais será superada pela iniquidade, pois é nela que se encontra o fundamento moral para a elaboração das leis civis, e fora dela não há como edificar uma sociedade justa e fraterna.

 A igualdade em dignidade de todas as pessoas

Em Cristo reside a igual dignidade humana, pois n’Ele todos se tornaram um só. Os escritos do Novo Testamento afirmam que Deus não faz distinção de pessoas, pois todos possuem a mesma dignidade, fundamento último da radical igualdade e fraternidade entre os homens, independentemente de raça, nação, sexo, origem, cultura, classe etc. Somente no reconhecimento dessa dignidade poderá surgir a possibilidade de crescimento comum e pessoal de toda a humanidade, assegurando igualdade de oportunidades entre as diversas etnias e classes sociais.

Homens e mulheres são chamados a exercerem sua especificidade na construção do mundo de tal modo que, a ação de um complementa a do outro de forma harmoniosa, e ambos se humanizam e se realizam como pessoas que se descobrem vocacionados para os outros. E também são chamados a construírem a ‘unidualidade’ a fim de colaborarem na edificação da família humana através da geração de novos filhos de Deus. Esta abertura ao convite divino só pode ser vista na lógica do amor e da solidariedade.

Todas as pessoas, independentemente de suas constituições física ou psíquica, são plenamente humanas e chamadas a testemunharem a fidelidade ao projeto do Reino. Ninguém pode ser excluído em função de limitação física ou mental e, especialmente para essas pessoas, a sociedade deve prover condições para o seu desenvolvimento, afim de que possam também dar a sua contribuição, e assegurar efetivas condições de igual oportunidade a todos. Da mesma forma, a comunidade internacional deve empreender esforços para que também todos os Estados tenham condições de  garantir a dignidade a seus membros.

 Sociabilidade humana

Essencialmente, decorrente de sua criação divina e do modelo da comunidade perfeita – Santíssima Trindade – a melhor comunidade, a pessoa humana é um ser social. Daí a necessidade de se relacionar, integrar e colaborar com seus semelhantes em ordem de comunhão, na busca de conhecimento e desenvolvimento fraternal. Somente quando existe a prática do amor fraterno, perseguindo o bem para si próprio e para os outros é que homens e mulheres constituem grupamentos estáveis, buscando a conquista do bem comum, merecendo dignamente a denominação de sociedade. Embora não uniforme, pois está relacionada à multiplicidade de culturas e expressões, a sociabilidade humana depende de um pluralismo sadio para constituir um tecido unitário e harmônico.

 Essas importantes dimensões da integralidade humana destacadas no 3º capítulo da DSI foram fundamentais para a Igreja assumir sua voz profética em defesa da vida, especialmente na América Latina. Marcante foi a fidelidade de leigos e leigas, religiosos, religiosas, padres e bispos que, em anos recentes, assumiram a defesa da dignidade humana até as últimas consequências. Ainda hoje o testemunho dos discípulos missionários, tal qual a Conferência de Aparecida denominou os cristãos, se faz necessário e urgente, pois o desrespeito à dignidade de tantos irmãos e irmãs ainda perdura em nossa sociedade.

 Nota:

[1] A tradição filosófica sempre entendeu o ser humano como um animal ético ou moral, capaz de dar a si mesmo as próprias leis, decidindo seu próprio destino. Essa consciência ética ou moral, independente de religião, é conhecida como Lei natural, pois é da própria natureza do ser humano. Para o cristianismo, essa lei natural advém da graça de Deus, mas, além dela, também da Revelação e, em especial, da mensagem libertadora do Evangelho, de onde advém a qualificação de lei moral cristã ou simplesmente lei moral.

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 Para refletir:

 1. Qual a importância, para a ação pastoral, da afirmação da unidualidade entre corpo e alma?

2. Que ações nossas comunidades podem desenvolver para a promoção da dignidade humana?

3. Em todo o Compêndio e especialmente no tópico referente à sociabilidade humana, se percebe que a DSI busca e prega a Paz entre os povos, respeitando-se a multiplicidade de culturas e expressões. Como alcançar esse objetivo? Você conhece ou participa de alguma experiência nesse sentido? Qual?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá  discutir este texto, presencialmente,  com seus amigos na comunidade.

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Aguarde a publicação da próxima ficha: 18/06/14 – Ficha 65 – Os direitos humanos – DSI (10ª)

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