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Ficha 63 – A pessoa humana: “Imago Dei” – (DSI 8ª)

| 21/05/2014 | 1 Comentário

F. 63A 63ª ficha dá início ao Capítulo III do Compêndio da DSI,  e contempla os tópicos I “Doutrina Social e Princípio Personalista” e II “A Pessoa Humana “Imago Dei”. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, ao abordar a presença da Igreja no mundo como serviço à humanidade, cerne da DSI, apresenta a compreensão teológica sobre a pessoa, a partir do conceito da fé cristã. Daí surgem as expressões ‘principio personalista’ e ‘imagem de Deus” que intitulam os dois tópicos aqui apresentados.

 I-DOUTRINA SOCIAL E PRINCÍPIO PERSONALISTA

No cristianismo, o personalismo, doutrina humanista que privilegia a pessoa, é concebido à luz do mistério da Vida, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo: Deus que se fez Homem para tornar os homens partícipes de sua divindade.

O objeto da Doutrina Social da Igreja é a sociedade humana, uma vez que ela não se encontra nem fora nem acima dos homens socialmente unidos, mas existe exclusivamente neles e, portanto, para eles. Por isso o homem é o protagonista ativo e responsável pela vida social, coração e alma de todo o ensinamento social católico. Em Cristo Senhor, ela percorre a via humana, reconhecendo em toda e qualquer pessoa, próxima ou distante, conhecido ou desconhecido, e, sobretudo no pobre e em todo aquele que sofre, um irmão pelo qual Cristo morreu (CIC, 1931).

 II- A PESSOA HUMANA “IMAGO DEI”

a) Criatura à imagem de Deus

O relato Bíblico de Gn 1-2 anuncia que Deus põe a criatura humana no centro e vértice de toda a obra criadora. O homem recebeu de Deus o sopro do seu Espírito de Vida, tornando-se o único ser visível na face da Terra a obter esse privilégio, que lhe outorga o dom da liberdade, da ciência e da consciência, para o discernimento do bem e do mal. Nisto consiste o fundamento primeiro e último da dignidade que Deus confere à criatura feita a sua imagem.  Por ser “Imago Dei”, é alguém que, na sua essência e existência, é capaz de relacionar-se com Deus de modo mais profundo desde a sua criação. Homem e  mulher criados como seres que se complementam e se associam, para continuar a obra da criação, ambos potencializam a dimensão social da natureza humana tornando-se sinais da unidade com Deus, abrigo seguro e feliz de toda a criatura humana.

O relato ensina ainda que o domínio do homem sobre o mundo consiste em dar nome às coisas (cf. Gn 2, 19-20): com a denominação o homem deve reconhecer as coisas por aquilo que são e estabelecer com cada uma delas uma relação de responsabilidade e não de destruição (CIC 373), o que a Encíclica Evangelium vitae, 421-422 denomina de ‘guardiães da vida’. Nesta perspectiva, a relação com Deus exige que se considere a vida do homem sagrada e inviolável, porque só Deus é Senhor da vida e da morte (CIC 2258) e,  em função disso, todos devem ter sua vida e dignidade respeitadas.

 b) O drama do pecado

O drama do pecado é um mistério que sempre assolou a história humana. Ele é uma desobediência, uma revolta contra Deus, por vontade de tornar-se igual a Ele no desejo de concentrar o poder nas próprias mãos. Com esse gesto, o homem tenta forçar o seu limite de criatura, desafiando Deus, único Senhor e fonte da vida.

A consequência do pecado é precisamente a ruptura do homem  com Deus, consigo mesmo, com os demais homens e com o mundo circunstante, e chega ao extremo na sua forma social, pois o pecado de cada um repercute, de algum modo, sobre os outros, isto é, nas relações entre as várias comunidades humanas. “Relações que nem sempre estão em sintonia com o desígnio do Criador, que quer no mundo justiça, liberdade e paz entre os indivíduos, os grupos, os povos” (Exortação Apostólica Reconciliatio et paenitentia 16).

É social todo pecado contra os direitos da pessoa, a começar pelo direito à vida, incluindo a do nascituro, ou contra a integridade física de alguém; contra a liberdade de outrem, inclusive a liberdade religiosa, contra a dignidade e a honra do próximo; contra o bem comum e contra as suas exigências, em toda a ampla esfera dos direitos e dos deveres dos cidadãos.

 c) Universalidade do pecado e universalidade da salvação

O ponto chave da Igreja e da DSI é o estabelecimento da salvação de todo ser humano (cf. Ficha 59). A universalidade do pecado está ligada à consciência da universalidade da salvação em Jesus Cristo, porque o que está infundido no coração humano não é o pecado mas, sim, o amor de Deus comunhão. A Salvação é uma realidade que o ser humano não pode alcançar somente com as próprias forças, senão com a ajuda da graça divina. Somente Deus salva, em Jesus Cristo. Ele é o único mediador, que pelo seu ato redentor destruiu o pecado e a morte, tornando-se a luz da esperança que ilumina o homem até a plenitude da vida em Deus. Por isso, é o Caminho capaz de reconstituir a dignidade de cada pessoa e a sublimidade de sua vocação. Caminho da sociedade para preservar a dignidade de toda e qualquer pessoa humana.

Na América Latina, o magistério explicitado nos documentos das Conferências de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, contribui para a compreensão da teologia da Doutrina Social sobre a pessoa. Neles há uma continua afirmação que, nas periferias do mundo, a criatura humana, a Imago Dei, continua  sendo atingida pelo pecado social. Através da “Opção Preferencial pelos Pobres”, a Igreja denuncia que os direitos fundamentais dos mais desprotegidos estão sendo violados, expostos às mais humilhantes e aberrantes formas de instrumentalização, que os tornam miseravelmente escravos do mais forte. A Exortação Apostólica Cristhifidelis Laici afirma  que  o mais forte pode revestir-se dos mais variados nomes: ideologia, poder econômico, sistemas políticos, tecnocracia científica, invasão dos ‘mass-media’. A Igreja, através dos muitos movimentos e pastorais de ação social, tem lutado para tornar suas vidas, suas condições de existência e sobrevivência, mais dignas e justas, afirmando seu empenho pela justiça e paz num mundo como o nosso, marcado por tantos conflitos e violências, desigualdades e intolerâncias “também em nome de uma excessiva tolerância e até da clara injustiça de certas leis civis” (ChL 5).

Deus capacitou homem e mulher com dons que os fazem colaboradores na obra da criação e da salvação do mundo. Especial vocação exercem os cristãos como testemunhas do Reino que já se faz presente em nosso meio. A inspiração e o critério do saber e do agir, conforme a Gaudium et Spes, é que todo aquele que segue Cristo, o Homem perfeito, torna-se mais homem, e nenhuma lei humana pode salvaguardar tão perfeitamente a dignidade e a liberdade do homem como o Evangelho de Cristo, que orienta para que todos os talentos humanos se convertam em serviço de Deus e bem dos homens (GS 41).

 E-Referências

Ravasi, Gianfranco, Card., Fé, cultura e sociedade: O princípio personalista publicado em Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal) acessado em 03/05/14.

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Para Refletir

1. Depois de ler e refletir sobre esta ficha, o que você destaca como mais importante na afirmação “IMAGO DEI”?

2. Qual a importância desta afirmação para se compreender a missão da Igreja?

3. No que esta Ficha ajuda a compreender a distinção entre pecado pessoal e o pecado social?

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Aguarde a publicação da próxima ficha: 04/06/14 – Ficha 64 – A integralidade da pessoa – DSI (9ª)

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