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Ficha 61 – A Natureza da Doutrina Social da Igreja- DSI (6ª)

| 23/04/2014 | 2 Comentários

DSI6Em continuidade ao Capítulo II do Compêndio da  DSI: “Missão da Igreja e Doutrina Social”, a ficha  nº 61 aborda o item II “A Natureza da Doutrina Social”, apresentando a essência teológica da DSI contida em reflexões e pronunciamentos do Magistério da Igreja sobre temas sociais. Apresenta a DSI como um saber iluminado pela fé e construído com a contribuição das diversas ciências, oferecido não somente à comunidade eclesial mas a todos os homens de boa vontade. Esse saber é transmitido através do Magistério em vistas de uma sociedade reconciliada na justiça e no amor, como sinal da continuidade e renovação proposta pelo Concilio Vaticano II.

 a) Um saber iluminado pela fé

A DSI foi se formando aos poucos com progressivos pronunciamentos do Magistério da Igreja [1] sobre temas sociais, alcançando maior ênfase no final do Século XIX, quando a encíclica ‘Rerum Novarum’  identificou conflitos entre capital e trabalho que afetavam a dignidade  do trabalhador e isto se configurava como uma missão para a Igreja (RN, 1).

Com relação à  sua natureza, a  encíclica ‘Sollicitudo rei socialis’  esclarece que a natureza da DSI é teológica, pertence especificamente ao campo da teologia moral, ou seja, trata-se de um saber construído e iluminado pela fé e não pelas convicções ideológicas, buscando seu último fundamento no Evangelho” (SRS, 41)  Cf. também A Teologia Moral em meio a evoluções históricas – CNBB. Ela é a formulação aprimorada dos resultados de uma reflexão atenta sobre as complexas realidades da existência do homem na sociedade e no contexto internacional, à luz da fé e da tradição eclesial. Sua finalidade principal é interpretar essas realidades no  âmbito temporal e cultural de cada época, para orientar o comportamento ético cristão, porém também se apresenta como um convite aos indivíduos, famílias, agentes culturais e sociais, políticos e homens de Estado.

A DSI tem o seu fundamento essencial na Revelação bíblica e na Tradição da Igreja, fonte de inspiração e luz para compreender, julgar e orientar a experiência humana e a história: antes e acima de tudo está o projeto de Deus que chama o homem à comunhão trinitária. A DSI compreende e considera como formas de conhecimento a fé e a razão. O conhecer da fé inclui a razão, que explica e compreende a verdade da Revelação Divina e que permite a adesão plena realizada pela pessoa humana, adesão livre e racional ao mistério de Cristo. A fé amplia a capacidade de conhecimento própria da natureza humana, racional, capaz de pensar e problematizar a realidade. O centrar-se sobre o mistério de Cristo, não enfraquece ou exclui a razão, mas faz da DSI um conhecer iluminado pela Fé, com destinação universal.

b) Em diálogo cordial com todo o saber

A DSI deseja ser interdisciplinar, isto é, entrar em diálogo com diversas disciplinas que se ocupam do homem e contribuem para melhor compreendê-lo na extensa, mutável e complexa rede das relações sociais. Além da própria teologia, busca auxílio das ciências humanas e sociais com a finalidade de contribuir para que a Igreja possa compreender de modo mais preciso o homem na sociedade e falar aos homens do próprio tempo de modo mais convincente. Esse diálogo interdisciplinar permite que as ciências acolham as propostas da DSI e se abram numa dimensão mais ampla ao serviço de cada pessoa.

c) Expressão do ministério de ensinamento da Igreja

A Doutrina Social é da Igreja porque é ela que a elabora, difunde e ensina. Na encíclica ‘Mater et Magistra’, o papa João XXIII destacou que a Igreja é mãe e mestra pois deve exercer  seu ministério como expressão de cuidado para que seus filhos encontrem o caminho certo (MM). Toda a comunidade eclesial – sacerdotes, religiosos e leigos – contribui neste processo em função do ‘sensus fidei’, isto é o senso da fé dado pelo Espírito ao povo de Deus. Aos bispos cabe, porém, em comunhão com o papa, exercer o ministério do Magistério no ensinamento social como doutrina da Igreja. É o Magistério que ensina com a autoridade que Cristo conferiu aos Apóstolos e aos seus sucessores: o Papa e os Bispos em comunhão com ele. Com isso, o Compêndio implicitamente destaca a responsabilidade dos bispos na divulgação e implantação da DSI, pois trata-se de uma função ministerial a eles designada. Deve ficar claro que a DSI é Magistério autêntico, que exige a aceitação e adesão por parte dos fiéis (DSI, 80; CIC, 2037, 2419-2463).

d) Por uma sociedade reconciliada na justiça e no amor

A DSI se insere na compreensão que a Igreja tem de sua missão. Em razão disso, ela  se preocupa com a vida humana na sociedade, onde estão em jogo a dignidade e os direitos das pessoas e a paz nas relações entre pessoas e comunidades de pessoas. O cuidado e a promoção das pessoas é consequência das relações de justiça e amor que tecem a sociedade e, nessa perspectiva, a DSI tem caráter profético, pois cumpre uma função de anúncio e de denúncia: 1) anúncio da sua visão global do homem e da humanidade, para orientação e formação das consciências e para direcionamento das ações; 2) denúncia do pecado de injustiça e violência que acontece na sociedade, onde os direitos são ignorados e violados, especialmente os direitos dos pobres, dos pequenos e dos fracos.

O objetivo da DSI é de ordem religiosa e moral diante das questões sociais. Ela indica e traça caminhos que uma sociedade reconciliada e harmonizada na justiça e no amor deve percorrer, antecipando “novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça” (2Pd 3,13).

e) Uma mensagem para os filhos da Igreja e para a humanidade

O Compêndio compara a DSI como uma mensagem dirigida a todos os homens de boa vontade. A primeira destinatária, no entanto, é a comunidade eclesial em todos os seus membros, cuja consciência é interpelada a reconhecer e cumprir os deveres de justiça e caridade na vida em sociedade. Isso implica responsabilidades sociais a assumir: 1) nas tarefas de evangelização desempenhadas por todo cristão, conforme os diferentes ministérios e carismas, assim como 2) nas obrigações políticas, econômicas, administrativas de natureza secular, que competem de forma especial aos leigos em razão de sua índole secular que lhe é própria e peculiar (LG). O Documento de Aparecida atualiza essa visão, enfatizando que, a partir da condição de discípulos e missionários, seja estimulado o Evangelho da vida e da solidariedade à luz da DSI, promovendo a preparação e o compromisso dos leigos para intervir nos assuntos sociais  (D.Ap., 400). Pela bagagem de humanidade e de humanização das suas normas de ação, a DSI tem sido considerada por  muitos membros de outras Igrejas e comunidades eclesiais, pelos seguidores de outras tradições religiosas e por muitas pessoas de boa vontade que não pertencem a nenhum grupo religioso.

f) No signo da continuidade e da renovação

A DSI se caracteriza pela continuidade dos ensinamentos eclesiais como ensinamento constante, que se mantém idêntico na sua inspiração de fundo, nos seus princípios de reflexão, nos seus critérios de julgamento, nas suas diretrizes de ação e, sobretudo, na sua ligação vital com o Evangelho. Tal continuidade pode ser observada através do Concilio Vaticano II, com os papas que se empenharam pela sua implantação, e  especialmente, com o papa João Paulo II, que determinou a sistematização do Compêndio da DSI, em 2004, para que a Igreja tivesse este importante documento. Ao mesmo tempo, manifesta uma capacidade de contínua renovação ao manter sempre um olhar para a história e para as mudanças e eventos que nela se produzem. Dessa forma, mantendo a firmeza nos princípios, mostra-se capaz de abrir-se às coisas novas. Nessa perspectiva, cabe lembrar  o esforço da Igreja latino-americana, principalmente a partir das Conferências Episcopais, em manter-se fiel às orientações do Concílio e na implantação da DSI.

A fé é fermento de novidade e criatividade. Na fé somos capazes de permanente reflexão sobre as situações deste mundo, tendo o Evangelho como fonte de renovação.

Mãe e Mestra, a Igreja está voltada para o homem, cuja salvação é a sua própria razão de ser. Ela é, entre os homens, o ícone vivente do Bom Pastor, que vai buscar e encontrar o homem onde quer que ele esteja, na condição existencial e histórica do seu viver. Aqui, a Igreja se torna para ele encontro com o Evangelho, mensagem de libertação e de reconciliação, de justiça e de paz.

 Como conclusão, cabe recordar que a DSI se insere no processo da Revelação de Deus que a Igreja foi percebendo como a natureza, ou núcleo central, daquilo que se denominou Doutrina Social. A DSI faz parte do Depósito da Fé que é ensinado pelo Magistério eclesial e se constitui em apelo para homens e mulheres do nosso tempo. Tal qual a GS destacou em seu título, a Igreja tem a missão de participar e incentivar as alegrias e as esperanças da humanidade, mas ela faz isso afirmando que Jesus Cristo, em razão do seu amor infinito, esta presente na história humana. Disso decorre a compreensão de sua missão d’Ele recebida: “Portanto ide, fazei discípulos em todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”. (Mt 28,19-20)

Nota

[1] Magistério da Igreja – É a designação da tarefa da Igreja Católica de explicar a fé, interpretá-la com a assistência do Espírito Santo e protegê-la de adulterações (Youcat, 13). “O ofício de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo”, isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma (CIC 85-87).

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Para refletir:

 1. Por quê o diálogo da Igreja com as diversas ciências é importante para a DSI?

 2. Diante das questões sociais atuais, quais anúncios e denúncias somos convidados a realizar de forma a promover a pessoa humana e as relações de justiça e amor?

 3. Depois de aprofundar sobre a natureza teológica da DSI, o que muda na sua forma de conceber o envolvimento da Igreja em questões sociais? O texto contribui para entender a sua responsabilidade social nas tarefas intra e extra eclesiais?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá  discutir este texto, presencialmente,  com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários logo abaixo deste texto.

c) Por fim, você poderá interagir na sala de aula virtual   “Ambiente Virtual de Formação” da Arquidiocese.  Acesse http://www.avf.org.br/ e siga as orientações.

Aguarde a publicação da próxima ficha: 07/05/14 – Ficha 62- Acenos históricos da Doutrina Social da Igreja – DSI (7ª).

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