Ficha 125 – Cristãos Leigos e Leigas: protagonistas de uma espiritualidade encarnada e integral (CNBB 105, 6)

| 10/05/2017 | 0 Comentário

Em continuidade à Ficha anterior, esta apresenta a reflexão sobre o protagonismo dos leigos e leigas, desta vez sobre a espiritualidade que deve orientá-los no testemunho de vida. Abarcando a totalidade do ser, na experiência de fé e vida, o Documento 105  denomina essa espiritualidade como “encarnada e integral” e toma por base documentos do CVII como Lumen Gentium (LG), Apostolicam Actuositatem (AA) e, principalmente, as atualizações realizadas pelas Conferências dos bispos latino-americanos em Puebla, Santo Domingo e Aparecida.

 Discípulo-missionário, uma espiritualidade

O texto de Lc, 21 13-35, descreve como deve ser a espiritualidade do discípulo missionário. Ela engloba todos os momentos da vida daquele que se coloca a caminho do encontro com o Pai. É no caminhar, ao lado dos irmãos, enfrentando os desafios da vida, as desilusões as tristezas, as alegrias e esperanças, como bem destacou a Gaudium et spes, que a experiência com Jesus Ressuscitado se manifesta e nela, se descobre os apelos de Deus para vida. Ser discípulo missionário é fazer a experiência do mistério do Deus vivo e presente no meio do povo, no dia a dia. No mistério da vida há um caminho de busca por uma dimensão espiritual, que acontece através do querigma, cuja manifestação se dá de variadas formas e transcende a noção de uma vida somente física e mental. Esse encontro, que se renova constantemente, constitui o fio condutor do processo que levará o cristão à conversão, ao amadurecimento da espiritualidade, à vida comunitária e à missão (Documento de Aparecida, (Doc.Ap.) 278).

Ao abordar a espiritualidade laical, o Documento 105 enfatiza a necessidade de uma espiritualidade encarnada e integral, identificada através do seguimento a Jesus, da vida no Espírito, da comunhão fraterna e do serviço aos necessitados. A espiritualidade cristã é integral porque contempla todos as dimensões da vida humana, tanto as intelectuais como as sensoriais; ela, também abarca todos os momentos da vida, a família, o trabalho, a escola, a comunidade e a sociedade. Todas elas ajudam o cristão a desenvolver as habilidades para o convívio social e para o serviço aos irmãos. Para os leigos e leigas serem protagonistas de uma espiritualidade encarnada e integral, o processo começa pela conversão pessoal, seguido pelo ato de viver o discipulado na experiência comunitária, na participação do sacramento da Eucaristia, na formação bíblico-teológica e na leitura orante da Palavra, encontrando aí os eixos que sustentam o compromisso missionário.

O livro dos Atos dos Apóstolos narra que o testemunho dos primeiros cristãos como fermento de transformação da sociedade começava na vida em comunidade, onde os cristãos viviam a partilha dos bens, segundo a necessidade de cada um e “tudo era posto em comum entre eles” (At 4, 32-35). Dessa forma, a vida em comunidade expressa o que se deseja para a vida em sociedade. Ela desperta para a partilha, que se estende à compaixão diante da dor e ao sofrimento alheio, e se traduz em serviço aos irmãos, especialmente aos pobres, no sentido do termo bíblico anawin: o escravo, o estrangeiro, o perseguido, o refugiado, o oprimido e o explorado. A opção pelos preferidos do coração de Deus deve ser também a opção de sua Igreja, chamada a ter os mesmos sentimentos de Cristo Jesus (Fl 2,5). Ao manifestar a “Opção Preferencial pelo Pobres e pelos Jovens”, a Conferência de Puebla lembrou que não há como optar por Jesus Cristo e pelo seu Reino, sem o empenho na defesa da vida daqueles que o sistema despreza (Doc. Ap. 1134, 1186). A Conferência de Aparecida confirmou tal opção e, recentemente, o Papa Francisco deu-lhes uma interpretação mais incisiva: uma Igreja pobre para os pobres, chamada a descobrir Cristo neles e a reconhecer a força salvífica des suas vidas e a colocá-los no centro do caminho da Igreja, acolhendo a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles (Evangelli Gaudium (EG), 198). Além disso seu testemunho revela ao opção de seu pontificado pelos pequenos e pobres.

 Espiritualidade de comunhão e missão

Assumir uma espiritualidade de comunhão e missão significa ter olhos e coração voltados para os problemas do mundo onde se está inserido. É cumprir o chamado de Jesus Cristo para ser sal e Luz, para que a sociedade seja cada vez mais sinal do reino. É a espiritualidade do ir ao encontro do outro, na busca do próprio Jesus Cristo. Na perspectiva da comunhão com todos os que desejam e buscam o Reino, aqui e agora, assume-se a missão como serviço aos outros através do amor” (Gl 5, 13). Há muitos desafios que desviam o foco da verdadeira espiritualidade. Entre outros podem-se contar: tendências a um cristianismo feito por devoções, que têm por base vivências individuais e sentimentais da fé; falta de preocupação com a promoção social e formação; falta de espaços de diálogo na família, quando esta não mais transmite da fé. O renovado impulso missionário encontra suas motivações na experiência do cultivo de uma mística que dê sentido a vida, rejeitando a tentação de uma espiritualidade individualista e intimista (EG, 70, 262).

O Documento de Puebla considerou “a religião do povo latino-americano, em sua forma cultural mais característica: procissões, festas, novenas, promessas, vias-sacras e romarias, nos cânticos, nos grandes santuários dedicados à Maria, como a expressão da fé católica e da alma do povo (Documento de Puebla, 3,1); a qual, o Papa Bento XVI, na abertura da Conferência de Aparecida, a considerou como “o precioso tesouro da Igreja Católica na América Latina” (Discurso na Sessão Inaugural 13 de maio 2007, 1). Trata-se de uma espiritualidade que integra o corpóreo, o sensível e o simbólico, encarnada na cultura do povo. Os bispos reunidos em Aparecida alertam aos discípulos-missionários que sejam sensíveis a estas manifestações e se empenhem no sentido de divulgar o conhecimento da Palavra e incentivar a participação nos sacramentos, para aproveitar ainda mais esse rico potencial (Doc. Ap. 258-263).

Esses destaques indicam a necessidade de novas posturas no desenvolvimento de uma consciência crítica que orientem os cristãos. Os caminhos, que passam pela compreensão do que é ser discípulo-missionário, pela busca da liberdade, pela sensibilidade à situação social dos irmãos, pela conquista de um espaço interior de reflexão que conduz à vida, podem ser difíceis e duros, mas levarão, os que  nele se aventurarem, a viver uma espiritualidade encarnada e integral.

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Para Refletir:

  1. O que você entende por “uma espiritualidade encarnada”?
  2. Como você vê os principais pontos do desenvolvimento da espiritualidade?

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a) Você poderá discutir este texto, presencialmente, com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários abaixo.

c) Por fim, você poderá interagir no “Ambiente Virtual de Formação” da Arquidiocese. Acesse http://www.avf.org.br/ e siga as orientações.

 

Aguarde a próxima publicação: 24 de maio: Ficha 126 – A organização e a formação dos cristãos leigos e leigas  (CNBB 105, 7)

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