Ficha 124- Leigos e leigas: discípulos missionários na Igreja e no mundo (CNBB 105, 5)

| 26/04/2017 | 0 Comentário

Esta Ficha continua a reflexão iniciada nas anteriores sobre a teologia do laicato. Partindo da noção de Igreja como “comunidade missionária”, desenvolvida pelo Concílio Vaticano II a partir da compreensão eclesiológica “Povo de Deus”, ela reflete sobre a importância da participação dos leigos e leigas na missão eclesial. Os documentos do magistério assumiram essa mesma perspectiva, mas foram as Conferências Episcopais de Santo Domingo e Aparecida que destacaram o papel dos leigos e leigas como “protagonistas da missão” e “discípulos missionários”, como os mais envolvidos com as estruturas sociais.

A Igreja é missionária

A missão da Igreja fundamenta-se na teologia bíblica apresentada nos vários textos que relatam Jesus enviando seus discípulos: Mc 16,15; Jo 20,21; Mt 10,16; Lc 10, 1. Ainda que historicamente se tenha interpretado a missão como ação específica dos ministros ordenados, desde o início do século XX surgiram vários movimentos de renovação eclesial que buscaram refletir sobre a presença da Igreja no mundo. Na década de 1930, a Ação Católica foi criada para incentivar e promover a ação dos leigos, a qual foi de fundamental importância para a realização do Concílio Vaticano II. Especialmente a Constituição Dogmática Lumem Gentium (LG),  afirma que a missão de evangelizar foi dada a toda a Igreja e, portanto, ao Povo de Deus, distinguindo apenas a forma de atuação nos mais diversos ministérios (LG, 17). Também o Decreto Conciliar Apostolicam actuositatem destaca que a missão dos leigos se caracteriza pela forma como são chamados a viver no mundo. Jesus Cristo ensinou que onde dois ou mais estão reunidos em seu nome, ali está a Igreja, pois são chamados a transformar o mundo a partir das estruturas humanas e sociais: dando testemunho de Cristo no seu local de trabalho, de estudo, de lazer e na comunidade. Com o Vaticano II a Igreja reconhece que os leigos e leigas evangelizam através do testemunho de vida.

A Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (EN), 1975, do papa Paulo VI, apresenta como destinatários da missão da Igreja não apenas os não crentes, mas também aqueles que já batizados, mas que ainda não possuíam a plena compreensão da proposta de Jesus Cristo. Ainda segundo ele, os leigos deveriam ser os principais destinatários e agentes da evangelização (EN, 54). Seguindo a proposta da EN, o Papa João Paulo II, em 1988, publicou a Exortação Apostólica Christifideles Laici (CfL), totalmente dedicada a missão dos leigos e leigas. O documento destaca que a dignidade missionária deles, nasce do mistério de Cristo e não apenas em assumir substitutivamente a função dos padres e religiosos (CfL 40-44). Em 1990, diante dos inúmeros desafios dos novos fenômenos sociais e das novas culturas, chamados de areópagos modernos, o Papa João Paulo II publicou a Encíclica Redemptoris Missio, apresentando uma uma nova forma de fazer a missão na Igreja, isto é que ela deveria ser constante, permanente e realizada por todos. Essa orientação foi plenamente assumida pela CNBB através da publicação do Documento 62 – “Missão e Ministérios dos cristãos leigos e leigas”, que por sua vez, constituiu-se em uma importante referência para a elaboração do Documento 105, que ora estudamos.

 Leigos e leigas discípulos missionários

Em 2007, a Conferência de Aparecida promoveu uma grande reflexão sobre a participação dos leigos na Grande Missão continental que a Igreja latino americana se propunha fazer. Foi nessa Conferência que a expressão “discípulos missionários” ficou conhecida. O impulso foi dado pelo papa Bento XVI que na maioria de seus pronunciamentos se referiu aos cristãos como “discípulos missionários”. Ele destacou que só pode ser missionário quem antes se faz discípulo e ouvinte do Senhor. Recordando a Encíclica Deus Caritas est (DC), ele destacou que a opção pela vida cristã não é adesão a uma ideia ou uma teoria, mas fruto de um encontro pessoal com a Pessoa de Jesus Cristo, que impõe um novo rumo em nossa vida (DC, 1), porque Ele é a fonte da vida e da paz (Jo 10,10;20,19).

Essa proposta aparece nos capítulos III e IV do Documento de Aparecida que abordaram, respectivamente, “A Alegria de sermos discípulos missionários para anunciar o Evangelho de Jesus Cristo” e “A vocação dos discípulos Missionários à santidade”. Neles, se ressalta que ação dos cristãos não é um compromisso que se assume, mas um modo de viver a boa nova da dignidade humana, na vida, na família, no trabalho, na ciência e na solidariedade com a criação. Diante do forte apelo ao individualismo proposto pelo mundo moderno, os discípulos missionários são chamados a se fazerem próximos dos últimos, dos marginalizados, dos descartados, seguindo a prática de Jesus que acolhe, cura, perdoa e liberta, assumindo a centralidade do mandamento do amor, da caridade fraterna, como dom de si “nisto conhecerão todos que sois meus discípulos” (Jo 13,35). A Encíclica Evangelli Gaudium (EG) destacou que para os cristãos, essa forma de viver, se caracteriza como a missão dada por Jesus Cristo, como caminho de santidade (EG 273).

Como testemunho de vida, os discípulos missionários devem assumir o entusiasmo e a alegria que emanam da fé em Cristo e, também, deverão ser promotores do bem comum, da concórdia e da vida em comunidade. Assumindo o discipulado de Cristo, os cristãos são chamados a testemunhar sua fé no dia a dia, desde as mais simples tarefas e em todos os momentos, não bastando esperar alguém pedir socorro, mas oferecer-se, adiantar-se e ter atitudes coerentes com a fé que professa. Como todo cristão é chamado a vivenciar a sua fé junto de sua comunidade, cabe aos leigos e leigas o empenho para que ela consiga ultrapassar a pastoral da mera conservação e seja uma Igreja, de fato missionária, aberta e profética que busque promover a vida, a dignidade e alegria em meio a tantos desafios e sinais de morte no mundo.

Por outro lado, os discípulos missionários são chamados a viver dando testemunho da fé em um mundo que cada vez gera mais exclusão, insatisfação e desrespeito à natureza e à pessoa humana. Cabe aos cristãos prepararem-se para assumir uma postura crítica perante tudo aquilo que vai contra o Reino de Deus, enfrentando as oposições existentes contra esse projeto. Assim, os cristãos devem se engajar na luta contra uma economia da exclusão, contra a cultura do descarte, contra a globalização da indiferença, contra o fetichismo do dinheiro e a especulação financeira, contra a desigualdade que gera violência, não ao pessimismo estéril, não ao mundanismo espiritual, não à guerra do dia a dia, onde o outro precisa ser destruído.

Em 2015, o papa Francisco proclamou que 2016 viveríamos o ano Santo da misericórdia. Para falar da missão da Igreja, usou a imagem de um grande hospital que acolhe a todos os que o procuram para salvar a sua vida e que este hospital deve estar sempre disposto a acolher a todos. A Igreja deve ser marcada pela acolhida fraterna a todos, especialmente aos mais vulneráveis, os prediletos de Deus. Oxalá cada leigo e leiga tenha a coragem de seguir o ensinamento do Papa Francisco.

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 Para Refletir:

  1. O que significa afirmar que a Igreja é missionária?
  2. O que mais te atrai no desafio proposto pela Conferência de Aparecida, de sermos “Discípulos Missionários”?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá discutir este texto, presencialmente, com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários abaixo.

c) Por fim, você poderá interagir no “Ambiente Virtual de Formação” da Arquidiocese. Acesse http://www.avf.org.br/ e siga as orientações.

Aguarde a próxima publicação:  10 de maio – Ficha 125: Cristãos leigos e leigas, protagonistas de uma espiritualidade encarnada e integral  (CNBB 105, 6)

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Colabore com Equipe do AVF na produção e edição das Fichas. Saiba como acessando este link ou escrevendo para avf@arquidiocesecampinas.com

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