Ficha 121: Os avanços e retrocessos na conscientização dos leigos e leigas como protagonistas (CNBB 105, 2)

| 15/03/2017 | 0 Comentário

Vimos, na Ficha anterior, que o magistério eclesial, desde o Vaticano II até os recentes ensinamentos do papa Francisco, tem contribuído para a crescente consciência eclesial dos cristãos leigos e leigas e seu protagonismo na Igreja. Essa conscientização é o principal ponto de partida para que entendam a si, a sua vocação e a missão que devem desempenhar na Igreja e no mundo. Nessa Ficha, refletiremos sobre os avanços e retrocessos em relação à compreensão do laicato no interior da Igreja e na sua relação com a sociedade.

Avanços

Desde o Vaticano II, a presença dos leigos e leigas na Igreja e no mundo tem se fortalecido e se intensificado. Ela se confirma na participação corresponsável e atuante nos serviços pastorais e nos ministérios, conforme já destacou o Documento 62, da CNBB, atestando uma compreensão cada vez maior da definição conciliar de que a Igreja é “o povo de Deus”. Essa compreensão teve como consequência uma fecunda reflexão sobre a teologia do laicato reverberada nos momentos de formação realizados nos diversos organismos eclesiais. Constata-se, em muitos lugares, o crescimento da consciência missionária nas crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Com alegria e perseverança, muitos cristãos experientes na vida mística e na espiritualidade atuam em movimentos eclesiais, sociais e políticos, e colaboram na santificação das estruturas e realidades do mundo. Em comunhão com seus pastores, leigos e leigas seguem os planos de pastoral das dioceses/paróquias, abraçando a dimensão social do Evangelho e da fé.

Inúmeros são os cristãos leigos e leigas presentes em diversas áreas da sociedade, que brilham com competência, fé e humanismo. Muitos são comprometidos com os movimentos sociais, populares, sindicais e nos conselhos paritários de políticas públicas, lutando pela dignidade da vida para todos; na defesa do trabalho digno; na eliminação do trabalho escravo, do tráfico humano, da violência contra as mulheres e da exploração infantil; na defesa e demarcação das terras indígenas e dos quilombolas; e em tantas outras lutas e tarefas humildes. O Papa Francisco em seus ensinamentos tem sido um grande incentivador do laicato, testemunhando que toda ação pastoral revela-se como um exercício do cuidado da Igreja.

Retrocessos

O documento classifica como retrocesso o fato de algumas propostas do Concílio Vaticano II terem sido implementadas em muitas dioceses, entre as décadas de 1970 a 2000, e que hoje estão perdendo força. Se de um lado, a participação dos leigos e leigas nos Conselhos Pastorais das Comunidades (CPC) e das Paróquias (CPP) é um avanço, de outro revela o fechamento e a visão redutiva de leigos e leigas, os quais julgando-se superiores aos outros, dominam o processo pastoral, ocasionando um grande retrocesso. Na comunidade eclesial deve predominar o serviço aos irmãos, não a tentativa de controlá-los. Tal cultura inibe a participação da vida comunitária, estimula a volta ao tradicionalismo, a mundanidade espiritual, a fofoca, a tendência de criticar, classificar, analisar e controlar tudo. Desse modo, a comunidade não cresce, não  se renova e a ação evangelizadora fica restrita à administração dos sacramentos, ou apenas para as práticas devocionais, enfraquecendo o protagonismo laical. Essa mentalidade reforça a ideia de uma Igreja voltada para si, que parece ter se esquecido o serviço ao pobres e a sua missão ecumênica, de buscar somar forças com outras Igrejas cristãs e o diálogo com as diferentes religiões, para que juntas encontrem caminhos para os problemas que afetam todo o povo de Deus.

O Papa Francisco também tem denunciado o retrocesso ao clericalismo, que é uma mentalidade em que apenas os membros do clero devem agir na Igreja, ou quando se trata do leigo, este reproduz comportamentos e atitudes clericais, que comprometem sua identidade. Além disso, ele elenca alguns vícios que precisam ser combatidos: a planificação excessiva e o funcionalismo, como se os cristãos fossem funcionários de uma empresa/ONG; a má coordenação; o ‘alzheimer espiritual’; a rivalidade e a vanglória; a divinização dos chefes; a indiferença para com os outros; a cara fúnebre; os círculos fechados/panelinhas; os exibicionismos; a autossuficiência, a mentalidade mercantilista, o gnosticismo e o apego ao poder. O clericalismo associado a essa visão equivocada da Igreja contribuem para o desconhecimento, a desinformação e a oposição às CEBs, às questões agrárias, indígenas, afrodescentes, à teologia da libertação; a rejeição à política; resistências quanto à opção preferencial pelos pobres (OPP), que clamam por vida, justiça, dignidade e inclusão social, que não são apenas questões teológicas, sociais e políticas, mas uma questão de fé e de fidelidade ao Evangelho. Por fim, há que se considerar que a formação desenvolvida nas comunidades fica mais preocupada com a chamada “pastoral da manutenção” e pouco ajuda na conscientização dos leigos e leigas na transformação da realidade.

Os cristãos leigos e leigas e o mundo

As mudanças trazidas pela pós modernidade parece ter seduzido os cristãos de tal forma que muitos deles têm se encantado com o mundo moderno, esquecendo-se da sua missão. O acento nas capacidades pessoais tornou as pessoas individualistas e isso atingiu também os cristãos. Especialmente nas cidades, surgiu uma cultura do consumo, na qual possuir bens materiais se tornou mais importante que o cuidado com o ser humano. Assim muitos cristãos acham normal que aqueles que não têm condições econômicas (os desempregados, os pobres, os idosos) sejam privados de bens mínimos, até para a sua necessidade básica. Produziu-se uma lógica competitiva, fazendo as pessoas acreditarem que neste mundo vence o mais forte e, que em razão disso, cada um deve conquistar seu espaço a qualquer custo, fazendo emergir a indiferença diante do sofrimento alheio. Essa nova cultura parece abafar os apelos de Jesus Cristo, nas bem aventuranças, como se elas fossem impossíveis de serem praticadas e vividas. Tal compreensão leva os cristãos a se sentirem impotentes e incapazes de viver os apelos do batismo no mundo, aos quais acabam optando por atuar apenas na Igreja.

Todos esses retrocessos, tentações e oposições não fazem parte da essência comunitária da Igreja, fundada no mistério do amor do Deus trinitário e na relação de compromisso com o próximo. Viver e atuar como cristão leigo e leiga neste mundo globalizado implica na mudança de mentalidade e de estruturas, no modo de conceber a própria Igreja, como povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito. A Igreja é chamada a ser: comunidade dos discípulos de Jesus; comunidade fraterna e solidária de ajuda e serviço mútuo; Igreja em saída, de portas abertas e que acolhe; Igreja da conversão pessoal e pastoral em espírito de comunhão e participação. Uma Igreja da escuta, do diálogo e do encontro, que caminha para frente, dentro da história, com lucidez e esperança, com paciência e misericórdia, com coragem e humildade, como quem ensina e aprende, diz sim e diz não, mas sobretudo, uma Igreja servidora de todo o Povo de Deus.

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Para Refletir:

  1. Quais os espaços de atuação dos cristãos leigos e leigas em nossa realidade? Eles estão conscientes de sua missão?
  2. Como ser protagonista, com liberdade e autonomia na Igreja e na sociedade hoje? Como você vê esses avanços e retrocessos?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá discutir este texto, presencialmente, com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários logo abaixo deste texto.

c) Por fim, você poderá interagir na sala de aula virtual “Ambiente Virtual de Formação” da Arquidiocese.  Acesse http://www.avf.org.br/ e siga as orientações.

Próxima publicação dia 20 de março- Ficha 122: Leigos e leigas,  sal e luz do mundo: sujeitos eclesiais  (CNBB, 105, 3)

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