Ficha 117 – Educação e espiritualidade ecológica (LS-14)

| 02/11/2016 | 0 Comentário

f-117A Ficha 117 continua a reflexão sobre o agir, proposta pela Encíclica Laudato si. Ela aborda a primeira parte do capítulo VI, na qual o Papa incentiva o cultivo da educação e da espiritualidade ecológica, tendo como premissa o direito à vida plena em todas as suas formas. Segundo ele, a ecologia integral depende da mudança de hábitos que, por sua vez, desencadeará uma nova mentalidade, novas atitudes e novos estilos de vida. Somente a educação pode gerar esta nova mentalidade, a qual produzirá uma espiritualidade ecológica e integradora.

Apontar para outro estilo de vida

O mundo moderno marcado pelo consumismo passa a ideia de que ele é acessível a todos. Como nem todos têm as mesmas condições econômicas, tal realidade acaba causando um sentimento de impotência, que leva muitas pessoas a buscarem soluções nem sempre corretas. De outro lado, os que se encontram em melhores condições econômicas, tendem a buscar a felicidade nos bens materiais, criando novas necessidades de consumo e acabam se fechando em si mesmos. Ambas as situações se configuram em uma crise social que poderá provocar violência e destruição recíproca.

Se as pessoas são atingidas por tal situação, também podem redescobrir que o sentido da vida não está no consumo desenfreado, mas na alegria do encontro gratuito, expressão da bondade de Deus. É necessário mudar hábitos para reduzir o impacto do nosso estilo de vida no planeta, com inovação e criatividade. Uma pequena mudança de hábito pode exercer uma pressão sobre a sociedade. Vemos isso quando, ao deixar de adquirir determinados produtos, consumidores acabam provocando mudanças nas empresas que não respeitam o meio ambiente ou ferem a dignidade humana. Isso indica que a escolha no ato de comprar é também um ato moral, que compromete aquele que compra.

Apesar da Carta da Terra ter destacado a urgente necessidade de superar a autodestruição causada pelo sistema atual, ainda não foi desenvolvida uma consciência universal que permita isso. O Papa lembra que se valorizamos o destino comum, é urgente buscar outro modo de ver o mundo, onde as relações fraternas possam construir um mundo novo. É preciso que as pessoas desenvolvam a capacidade de sair de si para descobrir o outro. Este sair de si (auto-transcender) faz a pessoa abandonar o seu velho modo de ver o mundo para responder à sua vocação, que é cuidar do outro e do meio ambiente. Superar o individualismo desperta para uma reação moral sobre como cada um pode trabalhar para o bem comum, fazendo surgir o sentimento de responsabilidade.

Educar para a aliança entre a humanidade e o ambiente

A consciência da gravidade da crise cultural e ecológica que o mundo está mergulhado indica que novos hábitos precisam ser criados. O apego às facilidade/mordomias faz com que muitos se sintam incapazes de abrir mão do estilo dominante imposto pela sociedade atual. Ainda que exista uma maior consciência ecológica, muitas pessoas cresceram num contexto consumista e de bem-estar que torna difícil adotar outros hábitos. Isso se constitui em “um desafio educativo” que, pouco a pouco, começa a despontar em vários lugares. Somente uma educação integral pode recuperar distintos níveis do equilíbrio ecológico: o pessoal, o comunitário, o natural e o espiritual. É louvável que haja muitas pessoas que se assumem como educadores e que através de suas práticas indicam caminhos de uma ética ecológica, que faz crescer a solidariedade, a responsabilidade e o cuidado com o outro.

A educação integral ultrapassa a “cidadania ecológica”. A doação de si mesmo em um compromisso ecológico só é possível a partir do cultivo de virtudes sólidas daqueles que acreditam que um pequeno gesto pessoal, cotidiano, pode contribuir no cuidado com o meio ambiente. Isso é fruto de uma educação ética, que supera a moral estabelecida, onde cada pessoa se pergunta sobre o que pode fazer além do que está fixado pelos consensos sociais. Tais como: evitar o uso de plástico e papel, ir às compras com sacola retornável, reduzir o consumo de água, aproveitar água da chuva, diferenciar o lixo orgânico do inorgânico, reciclar, cozinhar o suficiente que se poderá comer para evitar o desperdício, tratar com desvelo os outros seres vivos, servir-se dos transportes públicos ou partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, plantar árvores, apagar as luzes desnecessárias. São pequenas atitudes assim que constroem um mundo melhor para todos. A rigor, para os cristãos, trata-se de um ato de amor daqueles que compreendem que tudo o que existe no mundo é obra de Deus e, por isso, precisa ser cuidado (Jo 10,10). Todas estas ações produzem um grande bem na sociedade, que se multiplicam, mesmo onde não percebemos. De outro lado, tais comportamentos levam as pessoas a descobrir sua dignidade e sua vocação neste mundo.

Vários são os espaços e âmbitos onde tais práticas devem acontecer: escola, família, meios de comunicação, catequese e outros. Desses, o mais importante é a família, porque é o espaço onde a vida acontece e se desenvolve, por isso São João Paulo II, na Encíclica Centesimus annus, a chamou de “sede da cultura da vida”(CA, 39). A família é o lugarcartaz_cf_2017 da formação integral, que conduz ao amadurecimento pessoal, a começar pelos pequenos gestos, como “pedir licença sem servilismo”, dizer “obrigado” e a pedir desculpa. Estes pequenos gestos, que para muitos parecem em desuso, constroem “uma cultura da vida compartilhada e do respeito pelo que nos rodeia”.

Compete à sociedade civil o esforço de formação das consciências da população incentivando todos a fazerem sua parte. Como parte da sociedade, a Igreja também tem sua responsabilidade na educação, a começar pelas suas próprias organizações, onde em cada uma delas deve primar por uma formação permanente, que desenvolva a “responsabilidade de todos”, a “grata contemplação do mundo”, o “cuidado
dos pobres e do meio ambiente”.

É o meio ambiente adequado que permite à vida prosperar, por isso é preciso avançar na consciência ecológica. É urgente que todos se unam para realizar a missão evangelizadora a
serviço da Vida plena para todos, tal qual a CNBB nos propõe nas DGAE 2015-2019, 35. Nessa perspectiva, a Igreja do Brasil propõe que, na quaresma do próximo ano, todos reflitam sobre o tema:  “Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida” e o lema “Cultivar e guardar a criação” (CF 2017). Seguindo os rumos da LS, essa Campanha da Fraternidade deseja chamar a atenção para o cuidado com toda a criação de Deus e propor um processo de co
nversão de todos nas ações de cada um para que o mundo, a nossa Casa comum, seja preservado. Para saber mais sobre a CF 2017 leia os textos indicados nos links citados após o texto.

A educação não possui apenas um sentido utilitarista expresso no que pode oferecer a quem a possui, mas um sentido estético, que fundamenta as escolhas da vida humana, que reconhece o valor da vida humana, da vida em sociedade e o respeito que se deve ter em relação à natureza, expressão de uma espiritualidade ecológica daquele que se reconhece criatura. A educação integral e a espiritualidade ecológica são condições para a construção de um mundo novo, onde reinará a paz.

Crédito da Foto: Shekina – Eco-Espiritualidade de Educação Ambiental – Caxias do Sul -RS

Para saber mais:

CNBB apresenta texto-base da CF 2017

Biomas brasileiros CF 2017 texto base – resumo para estudo / Gênesis 2,15 /

download

       

Faça o download do texto em PDF

Para Refletir:

  1. Qual a relação entre Evangelho e Educação?
  2. Como você definiria espiritualidade ecológica?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá  discutir este texto, presencialmente,  com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários logo abaixo deste texto.

c) Por fim, você poderá interagir na sala de aula virtual   “Ambiente Virtual de Formação” da Arquidiocese.  Acesse http://www.avf.org.br/ e siga as orientações.

Aguarde a publicação da próxima ficha: Ficha: 18 de Novembro de 2016. Ficha 118 – Conversão ecológica: cidadania planetária (LS 15).

Acesse o cronograma das próximas Fichas de Estudos.

Para colaborar com Equipe do AVF na produção e edição das Fichas,  acesse este link ou escreva para avf@arquidiocesecampinas.com

Para receber as Fichas de Estudos e/ou outras publicações da Arquidiocese de Campinas, preencha o cadastro.

Ao fazer uso deste texto, favor citar a fonte.

Registre seu comentário

Registre seu comentário