Ficha 114 – O Bem comum como sentido da vida (LS-11)

| 21/09/2016 | 0 Comentário

f-114Esta Ficha continua a reflexão sobre “uma ecologia integral” iniciada no quarto capítulo da Encíclica Laudato Si (LS), o qual analisa a ecologia em toda a sua extensão, enfatizando a responsabilidade social do ser humano como única criatura racional capaz de cuidar do mundo. Este cuidado coincide com a definição de Bem comum como expressão de um bem destinado a todos, e o que, no cristianismo, se configura como uma proposta, um sentido da vida cristã. Na Ficha anterior a reflexão recaiu sobre as dimensões ambiental, econômica, social e cultural. Nesta, serão abordados outros três tópicos “Ecologia da vida cotidiana”, “Princípio do Bem comum” e “Justiça intergeracional”.

Ecologia da vida cotidiana

O termo “cotidiano” expressa a vivência das pessoas no seu dia-a-dia, naquilo que consideram banal ou como atos e fatos que se sucedem diariamente. Vale lembrar uma frase do poeta alemão Rainer M. Rilke: “Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas”. Este pequeno trecho ajuda a compreender que tudo o que acontece, a cada dia, é oportunidade única para percebermos os apelos de Deus e a manifestação da sua Graça em nossa vida. É nesse sentido, de estar atento às riquezas e aos apelos de Deus no cotidiano, que a LS deu a esse tópico o nome “ecologia da vida cotidiana”, a qual no mesmo texto, aparece citada como “ecologia humana”.

O papa destaca a atitude das pessoas que, no dia-a-dia, são capazes de construir laços de pertença e convivência, pois, quando alguém toma uma pequena atitude para tornar o espaço, onde vive e onde convive com outros, mais bonito, acolhedor e harmonioso, todos os que nele vivem são beneficiados e se sentem comprometidos em também fazer algo melhor. Essas atitudes transformam as dificuldades e as durezas da vida em suas possíveis negatividades em relações fraternas e acolhedoras. Esta é uma bonita forma de expressar a certeza de que o Reino de Deus já está em nosso meio, pois o cuidado que todos devem ter com a “casa comum”, construirá uma nova sociedade. Esse cuidado o papa chama de “ecologia da vida cotidiana e  humana”.

Construir a “casa comum” é assegurar a habitação para todos, pois o direito à moradia é fundamental para assegurar a dignidade humana; urbanizar as habitações precárias, chamadas de favelas e cortiços, sem que isso erradique e expulse os habitantes é também exercer a “ecologia humana”. As estruturas urbanas devem propiciar as condições necessárias para que as pessoas possam sentir que a cidade é a casa delas; as vias de comunicação devem integrar as partes da cidade para que os cidadãos possam ter uma visão de conjunto e acesso a todas estas partes, em vez de se serem isolados em seu bairro. Não basta pensar apenas na utilidade, na praticidade e beleza dos projetos urbanísticos, é preciso cuidar para que tais espaços contribuam para a qualidade de vida das pessoas, para o encontro e a ajuda mútua; por isso, também, é importante que os habitantes do lugar possam contribuir com a planificação e as reformas da cidade.

A ecologia humana sugere que para garantir a qualidade de vida nas cidades, a questão da mobilização das pessoas seja repensada. É necessário que as políticas públicas, voltadas aos transportes, contemplem o bem comum, em vista da diminuição de carros particulares que intensificam o tráfego, elevam o nível de poluição, consomem enormes quantidades de energia não renováveis e impõem a necessidade de construção de mais avenidas, ruas e estacionamentos que prejudicam o tecido urbano.

marciaA ecologia humana, também, resgata a necessária relação que o ser humano deve ter com a natureza, a qual o Papa Bento XVI denominou de “ecologia do homem”, pois o homem também possui uma natureza que deve ser respeitada, e que ele, próprio, não pode manipular como lhe melhor convém. Nesta linha, é preciso reconhecer que o nosso corpo se relaciona diretamente com o meio ambiente e com os outros seres vivos.

O princípio do Bem comum

A ecologia integral é inseparável da noção de Bem comum, princípio este que desempenha um papel central e unificador na ética social. Como Bem comum, a Igreja compreende “o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição” (GS, 26, MM, 65). Disso decorre afirmar que o Bem comum é soma dos bens que beneficia toda a coletividade. Por incluir os bens materiais, culturais e espirituais de um povo a Doutrina Social da Igreja o chama de ‘bem moral’ (DSI, 146).

Portanto, o Bem comum pressupõe o respeito pela pessoa humana enquanto tal, com direitos fundamentais e inalienáveis, orientados para o seu desenvolvimento integral. Na atual situação da sociedade mundial, em que são flagrantes condições de enormes desigualdades e exclusão de pessoas ao acesso dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum surge como um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos pobres.

É com base neste princípio que a LS defende a proposta da “ecologia integral”, pois todas as diversas dimensões da “ecologia humana” devem estar fundamentadas no princípio do Bem comum e da solidariedade. É isso que irá transformar toda a humanidade e guiá-la para seu destino, o Reino de Deus. Eis porque o Bem comum se configura como um sentido para a vida.

A justiça intergeracional

Para a encíclica, a noção de Bem comum engloba também as gerações futuras. A humanidade não se encerra apenas nos seres viventes em um dado momento histórico. Já não se pode falar de desenvolvimento sustentável sem uma solidariedade com estas gerações, o que a encíclica denomina de justiça intergeracional. O mundo é o maior Bem comum destinado a todos que viveram, vivem e viverão.

A ecologia integral nos faz refletir sobre o mundo que se quer deixar para as gerações futuras e, na perspectiva cristã, nos faz perguntar pela nossa vocação. A insustentabilidade do atual modelo, certamente desembocará em catástrofes inimagináveis, das quais se tem tido graves amostras em várias regiões da Terra. Seremos responsabilizados pelas catástrofes futuras se nada fizermos no presente. Tudo isto passa pela seriedade com que se enfrenta os desafios do individualismo que marca a geração atual, os problemas sociais gerados pela busca egoísta de satisfação imediata, as crises de relacionamentos familiares e sociais e o consumismo desenfreado.

Ao final do capítulo IV, o Papa lembra que só existirá futuro se cuidarmos, cotidianamente, do mundo em que vivemos. Nessa tarefa, especial cuidado merecem os pobres, que poucos anos têm para viver nesta terra e não podem continuar a esperar. A garantia de vida deles, é a garantia de vida para todos. Nos dias atuais a justiça social e o Bem comum exigem que a Ecologia ultrapasse o cuidado apenas da natureza e dos animais. Urge um Ecologia que seja cotidiana, humana e integral.

Crédito da fotografia: Ahmet orhan

download

       

Faça o download do texto em PDF

Para Refletir:

  1. A Enciclica Laudato Si propõe a “ecologia integral” como forma de superar não só os problemas ecológicos estritamente considerados, mas também os problemas sociais, econômicos, éticos, culturais, etc. De que forma a ecologia integral pode ser vinculada como Bem comum?
  2.  A proposta de uma justiça intergeracional, ou seja de respeito às gerações futuras, condiz com o atual estilo de vida da humanidade? Por que?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá  discutir este texto, presencialmente,  com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários logo abaixo deste texto.

c) Por fim, você poderá interagir na sala de aula virtual   “Ambiente Virtual de Formação” da Arquidiocese.  Acesse http://www.avf.org.br/ e siga as orientações.

Aguarde a publicação da próxima ficha: 05 de Outubro de 2016 – Ficha 115 – A importância do diálogo na busca de soluções (LS- 12)

Acesse o cronograma das próximas Fichas de Estudos.

Para colaborar com Equipe do AVF na produção e edição das Fichas,  acesse este link ou escreva para avf@arquidiocesecampinas.com

 

Para receber as Fichas de Estudos e/ou outras publicações da Arquidiocese de Campinas, preencha o cadastro.

Ao fazer uso deste texto, favor citar a fonte.

Registre seu comentário

Registre seu comentário