Ficha 113 – Ecologia Integral, novo paradigma da justiça (LS-10)

| 07/09/2016 | 0 Comentário

f-113Esta ficha aborda a primeira parte do capítulo IV, denominado “Uma Ecologia Integral”, da Encíclica Laudato Si, com o qual o Papa Francisco conclui o momento do “Julgar” a realidade. O texto incorpora a definição de ecologia que vem se firmando na sociedade atual como “as relações entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem”. Por sua própria etimologia, percebe-se a amplitude do termo: não se refere apenas ao cuidado do meio ambiente, mas ao cuidado integral da nossa casa comum, o planeta Terra, em todas as dimensões e relações da vida que estão interligadas, de modo tal que, uma ação na dimensão econômica, repercute na vida social e pode repercutir na dimensão cultural e ambiental, e assim sucessivamente. E aqui entra a questão do princípio do bem comum, como conjunto das condições da vida social, que permite ao homem, tanto individual, como coletivamente, alcançar mais fácil e de modo pleno, a própria perfeição.

O título escolhido indica o propósito da Ficha. A Ecologia integral diz respeito à totalidade dos problemas que afligem a humanidade, os quais não podem ser abordados separadamente, pois são profundamente interligados e interdependentes. Nessa integralidade deve estar contemplada a justiça aos pobres (a segunda parte do título), pois são eles que mais sofrem com o desregrado uso dos recursos naturais que afeta a sua sobrevivência, a sua cultura e o seu sentido de vida. Defender a ecologia integral é estabelecer processos sustentáveis, garantir condições de vida para a natureza, para os animais e para as pessoas que nela estão inseridos e dela sobrevivem.

Ecologia ambiental

Compreender a integração e a interdependência da ecologia se configura o grande desafio da modernidade, pois além das escolhas políticas e econômicas serem profundamente pragmáticas e egocêntricas, o conhecimento sobre esta realidade, ainda bastante fragmentado e isolado, revela a ignorância do antropocentrismo que julga tudo para o bel prazer humano.

Se o homem moderno faz o que faz com a natureza, com os animais e com os semelhantes é porque existe uma crise profunda sobre o sentido da vida humana (Ficha 112). Em razão disso, o Papa sinaliza que a solução para essa crise ambiental passa por uma abordagem integral dos problemas que atingem a humanidade, com especial atenção aos que mais sofrem com a exploração e a degradação da natureza, os pobres e espoliados do mundo. A garantia da salvaguarda da vida do pobre se constitui como critério fundamental para salvar o mundo e a natureza; pois de outro lado, de nada servirá salvar a natureza se o homem, imagem do Deus vivo, não for salvo.

A ciência pode contribuir muito para o mundo perceber a importância de cada ser e a necessária inter-relação entre eles, principalmente os humanos. Isso ajudaria a perceber que a manutenção da vida de cada organismo, criatura divina, é necessária e fundamental para manter o equilíbrio da ordem natural do mundo, querida por Deus, onde todos os seres têm uma razão de existir.

Uma ecologia econômica

Em função de uma visão economicista, é comum ver as sociedades pensarem sempre na redução dos custos, mas nem sempre a intervenção na natureza, ainda que reduza os custos, significa um real bem econômico e social. Em razão disso, o papa alerta para a necessidade de uma ecologia econômica, capaz de considerar a realidade de forma mais ampla. A redução de custo precisa respeitar a natureza e se perguntar se em algum momento o prejudicado não será o próprio homem. É preciso lembrar que a economia é uma ciência humana, por isso, deve considerar todos os aspectos da vida humana. Torna-se imperiosa uma visão humanista de todos os saberes para que eles sejam utilizados de forma integral a favor da vida humana. Não há como priorizar os problemas ambientais sem considerar os demais fatores que atingem a vida humana: relações sociais, familiares, trabalho, problemas existenciais. Todas as dimensões da vida estão interligadas e já não é possível considerar isoladamente nenhuma delas, pois “o todo é superior à parte” (EG, 237).

Uma ecologia social

De forma profética, o papa lembra que se tudo está inter-relacionado, a constatação de que as sociedades estão em crise se reflete no meio ambiente e na qualidade de vida humana. Assim, se faz necessário uma ecologia social que contemple as diferentes dimensões sociais, a família à vida internacional, passando pela comunidade local e a nação, pois são as instituições que regulam as relações humanas e o não cumprimento de seus papeis provoca efeitos nocivos, como a perda da liberdade, a injustiça e a violência. Vários países são governados por um sistema institucional precário que privilegia o lucro de poucos à custa do sofrimento do povo. Assim, o papa lembra que o Estado, enquanto instituição, também precisa estar voltado para uma ecologia social, o que resgataria a sua função de cuidar do bem público.

 Ecologia cultural

Ecologia cultural é o nome que o Papa dá a preservação de inúmeras identidades culturais presentes na sociedade. Segundo ele, não tem sentido proteger a natureza, se não se respeita a história e a cultura que salvaguarda a identidade original de cada povo. O mundo moderno, com sua visão pragmática e consumista, destruiu culturas em plena harmonia com a natureza. Nem sempre a mais acertada solução técnica para o sistema e a economia será a melhor solução para determinado povo, pois a compreensão do que é necessário e vital está ligada à cultura, por isso, é necessário que os atores sociais locais assumam o protagonismo a partir da sua própria cultura.

A exploração e a degradação do meio ambiente provocada por um agente externo não atingem apenas os meios de subsistência de um povo, mas também a sua cultura; privá-lo dos elementos naturais é comprometer a sua identidade cultural e  o seu sentido da existência. Por isso, o Papa afirma: “o desaparecimento de uma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o desaparecimento de uma espécie animal ou vegetal. A imposição de um estilo de vida ligado a um modo de produção e consumo pode ser tão nocivo como a alteração dos ecossistemas”. Em razão disso, as pequenas comunidades como os indígenas, os quilombolas e os caiçaras, dentre outros, devem ter seus direitos preservados em projetos que afetam os seus espaços. Para eles, “a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam interagir para manter a sua identidade e os seus valores”. Impor a eles as escolhas econômicas do homem moderno é condenar a natureza onde vivem e a cultura que ali construíram.

É preciso cuidar de todas as formas de vida, principalmente a humana, que Deus quis constituir como sua imagem e semelhança, respeitar os povos e os ciclos naturais do planeta, que é a Casa Comum, fazendo com que o Evangelho seja de fato uma boa notícia, significativa para todos da sociedade contemporânea. Eis porque promover uma ecologia integral é garantir a justiça.

Credito da Foto:  Secom/Palmas, 2025

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Para Refletir:

  1. Qual a novidade que essa Ficha apresenta sobre a Ecologia? E o que ela tem a ver com a nossa fé?
  2. Qual das “ecologias” abordadas mais garante a efetivação da justiça?

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