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Ficha 112 – A crise do antropocentrismo (LS – 9)

| 24/08/2016 | 0 Comentário

F112

Esta ficha continua a reflexão anterior (Ficha 111) sobre a raiz dos problemas atuais analisados na Encíclica Laudato Si (LS), na qual o Papa Francisco diagnostica a existência de uma crise de sentido no mundo moderno. Esta crise seria decorrente do individualismo exacerbado que vê o ser humano como o centro do mundo, e do uso indevido dos avanços tecnológicos, que atingem os próprios seres humanos e a natureza, que já apresenta contas, caso o estilo de vida da sociedade não seja repensado. A LS indica a necessidade de se conhecer devidamente de onde provêm a crise, do seu impacto sobre os seres humanos e suas relações, e do surgimento de um relativismo prático que atinge o cerne da vida. Seguindo a linha da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, a Encíclica também apresenta um voto de confiança e de profunda esperança na capacidade do ser humano em mudar o mundo com os dons que Deus lhe deu. Além disso, diante do progresso tecnológico, para que a vida seja protegida, apresenta a necessidade de se defender o trabalho humano e de uma postura ética na pesquisa científica e na inovação tecnológica.

Crise do antropocentrismo moderno e suas consequências

Na tradução literal, antropocentrismo é a visão antropológica que atribui ao homem a posição de centro do universo. Para a encíclica, trata-se de uma profunda crise do sentido humano da vida, no qual o homem, centrado em si mesmo e no próprio poder, não mais reconhece seu lugar no mundo, segundo o que ensinam as Sagradas Escrituras. A tentação humana é esquecer-se de que é criatura, um ser entre e com as demais criaturas, e colocar-se como seu senhor absoluto, posição que compete somente a Deus e a mais ninguém. Esta parece ser a causa da atual crise (ética e moral, cultural e espiritual) que atinge todas as dimensões da vida humana. A saída apontada pela Encíclica é possibilitar ao ser humano repensar a vida, a partir do que significa estar vivo no planeta Terra e do que ele pode usufruir, sem nada prejudicar, pois tudo está interligado. O Papa Francisco declara que “não haverá ecologia sem uma adequada antropologia”, isto é, não haverá uma nova relação com a natureza, com os seres vivos e com as outras pessoas sem uma renovação do próprio ser humano em sua mentalidade, que só ele pode realizar.

A Encíclica busca, então, resgatar o antropocentrismo bíblico que valoriza cada pessoa humana que recebeu de Deus os dons para transformar o mundo. Através de sua capacidade de conhecimento, vontade, liberdade e responsabilidade, o homem reconhece o outro como imagem e semelhança de Deus. A abertura a um “tu” capaz de reconhecer-se, amar e dialogar continua a ser a grande nobreza da pessoa humana e é isso que se constitui a possibilidade de mudança do mundo. Nesta perspectiva, ciência e tecnologia não são fins em si mesmos, mas meios para transformar o mundo. Na Encíclica Populorum Progressio (PP), o Beato Paulo VI destaca que tecnologia, desenvolvida pela inteligência humana, existe para combater a pobreza e a injustiça social e dela depende a Paz (PP. 76). Se o homem não usá-la para este fim, ela de nada servirá.

Para superar o antropocentrismo desordenado, a LS aborda três desafios cruciais para o mundo de hoje: vencer o relativismo, defender a dignidade do trabalho e a ética na biotecnologia.

 O relativismo prático

Segundo a LS, é preciso superar o relativismo prático, que consiste em considerar algo como sendo relevante somente quando: serve para satisfazer os interesses egoístas de algumas pessoas, sem se importar com as consequências sociais e ambientais; promove a cultura do descartável; trata o outro e a natureza como simples objeto, utilizando diversos modos de dominação. Eis alguns exemplos de relativismo prático: o tráfico de pessoas, o crime organizado, o narcotráfico, o comércio de armas e de diamantes, a compra de órgãos, a exploração de crianças, o abandono de idosos, o comércio de animais e aves em extinção e o trabalho escravo. Trata-se de cultura que leva as pessoas a pensar apenas em si mesmas, tornando-se insensíveis e indiferentes aos gritos dos outros. É a “globalização da indiferença”, em que o Papa Francisco exorta sobre a necessidade de se crescer em uma solidariedade desinteressada, numa nova mentalidade que pense na prioridade da vida.

 A necessidade de defender o trabalho

A LS afirma que é preciso defender a dignidade do trabalho pois, para uma visão integral da ecologia, é fundamental que toda pessoa possa manter a si e sua família com o fruto de seu trabalho. A Encíclica Laborem excercens do Santo Papa João Paulo II, recorda que Deus criou o homem para trabalhar no mundo (Gn 2,15: “guardar e cultivar”) e todo trabalho é digno e dignificante, contribui para o desenvolvimento pessoal e humano. Garantir trabalho para todos exige que haja uma transformação social que ofereça às pessoas dignidade de vida, abrindo espaço para uma nova economia voltada à promoção do bem comum e da vida para todos. O Papa salienta que o progresso tecnológico não deve substituir o trabalho humano, trocando-se trabalhadores por máquinas. Ao contrário, a criação de novos postos de trabalho é um serviço essencial para o bem comum.

A inovação biológica a partir da pesquisa

Segundo a encíclica, é preciso haver ética na biotecnologia, pois a própria DSI apoia o uso das biotecnologias desde que estejam a serviço da vida do planeta, e que toda intervenção na natureza seja uma ação responsável que promova o bem e a integração de toda a vida. A LS chama a atenção para a devastação ambiental que se promove em favor dos latifúndios e oligopólios, e critica os diversos movimentos ecológicos que defendem a vida animal e vegetal mas que ignoram uma ética que promova a vida humana em sua integralidade. Sobre a questão dos organismos modificados geneticamente (OMG) o Papa Francisco avalia que é difícil fazer um julgamento geral, pois qualquer intervenção numa determinada área do ecossistema pode trazer consequências em outras. Sugere um amplo e responsável debate de cunho científico e social, considerando todas as informações disponíveis, incluindo aqueles que se veem direta ou indiretamente afetados por essa tecnologia. E ainda salienta que a tecnologia separada da ética dificilmente será capaz de limitar seu próprio poder, que pode ser destruidor.

Para o Papa Francisco, a realidade clama por mudanças que só serão alcançadas com uma ecologia integral, da qual o homem será o primeiro beneficiário. Estas mudanças só serão alcançadas com uma nova mentalidade no modo de ser e de se comportar em relação à natureza e à sociedade. Propõe mudanças no estilo de vida das pessoas, por meio da educação e da espiritualidade, que incide sobre gestos e hábitos cotidianos, quebrando a lógica do consumo descontrolado, da ganância, da violência, da exploração e do egoísmo, resistindo às consequências negativas do paradigma tecnocrático e antropocêntrico. O pontífice recorda ainda, que tudo isso seria mais fácil, a partir de um olhar contemplativo que vem da fé. Somente assim, compreendendo o cerne dessa raiz humana da crise ecológica, poderemos propor uma ecologia integral, pois Deus dotou o homem de capacidade para que ele próprio, com a inteligência e a tecnologia, supere as adversidades e possa contribuir na construção de um mundo mais justo e solidário.

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Para Refletir:

  1. A partir da leitura da Ficha, e se possível, da parte do texto da Encíclica que ela se fundamenta, qual a concepção de ser humano (antropológica) que o texto explicita?
  2. Qual dos três desafios para superar o antropocentrismo parece mais difícil de ser alcançado. Por quê?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá discutir este texto, presencialmente, com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários do texto publicado.

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Aguarde a publicação da próxima ficha:

Aguarde a publicação da próxima ficha: 7 de Setembro de 2016 – Ficha 113 – Ecologia Integral, novo paradigma da justiça (LS-10)

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