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Ficha 111 – O domínio do paradigma tecnocrático (LS-8)

| 10/08/2016 | 0 Comentário

Mariana (MG) - Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), atingido pelo rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Inicia-se com esta Ficha de Estudo sobre a Encíclica Laudato Si (Ls), a segunda parte do Julgar a realidade. As três Fichas anteriores fizeram a análise das condições ecológicas à luz da Teologia da Criação, que apresenta o Projeto de Deus para a humanidade. Nesta Ficha e na próxima, a análise da realidade recai sobre as intervenções do ser humano na natureza a partir de uma visão de progresso a todo custo e da supervalorização da técnica, como se esta fosse a responsável pelas escolhas humanas. Esta análise está contemplada no capítulo III: “A raiz humana da crise ecológica”, e busca apresentar as razões que levaram a humanidade a destruir o mundo criado para si. O primeiro tópico concentra-se sobre os avanços tecnológicos, frutos da criatividade humana e dons de Deus, com os quais o homem produziu muitos bens, mas, ao priorizar o bem estar individual e o lucro, instaurou o desequilíbrio no mundo. O segundo tópico, mostra como em tempos de globalização a tecnologia tornou-se predominante e instaurou-se um novo paradigma, que não obstante aos benefícios, trouxe também as mazelas do mundo. A proposta da Encíclica Ls é uma mudança de mentalidade, uma cultura ecológica que afirme a primazia da vida sobre a técnica e busque alternativas contra essa tecnocracia dominante, que cultiva a ilusão de poder resolver todos os problemas.

 A tecnologia: criatividade e poder

Nos dois últimos séculos, a humanidade pôde dar vazão à criatividade, pois experimentou grandes mudanças trazidas pela ciência e pela técnica, que compreendem desde o aperfeiçoamento da máquina a vapor à informática e seus desdobramentos, mudanças essas que conseguiram alcance e velocidade de comunicação no século XX, devido ao fenômeno da globalização. Esse progresso se reflete nos muitos ramos do conhecimento e da atividade humana, cujo objetivo é melhorar a qualidade de vida e fazer com que o ser humano, no domínio de sua plenitude, possa construir um mundo que seja mais sinal do Reino de Deus.

Com tudo isso, cresceu também o poder, principalmente entre aqueles que detém o conhecimento e, sobretudo, o poder econômico que lhes permite desfrutar dos avanços tecnológicos. Esse fato gera questões tais como: Qual é a razão do desenvolvimento tecnológico? Nas mãos de quem está esse poder e onde pode chegar? O que garante que ele será bem utilizado? Exemplos podem ser lembrados e mostram como o poder exercido por parte da humanidade domina através da ciência e da tecnologia, seja no lançamento de bombas atômicas; seja na exibição tecnológica, mostrada em regimes totalitários, que se valeram para o extermínio de milhões de pessoas; seja na tecnologia que não tem sido utilizada para a superação da miséria e da pobreza.

Os bispos reunidos em Aparecida indicaram que a face mais difundida da globalização é a econômica, e que ela se sobrepõe e se condiciona às demais dimensões da vida humana, pois valoriza principalmente o mercado e concentra o poder nas mãos de poucos (DA 61-62). Na Encíclica Caritas in Veritate, o Papa Bento XVI lembrou que o mercado, por si só, não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social (CV 35). Esse fato, aliado ao crescimento tecnológico, não acompanhado do desenvolvimento do ser humano quanto a responsabilidade, consciência e valores, leva  humanidade a não reconhecer os desafios que se apresentam. Na Ls, o Papa Francisco afirma que “o ser humano não é plenamente autônomo” e necessita de uma ética sólida, de cultura e espiritualidade, que lhe proporcionem um limite e um lúcido domínio de si.

A globalização do paradigma tecnocrático

O avanço da tecnologia propiciou ao ser humano uma grande melhoria na qualidade de vida mas, ao mesmo tempo, a percepção de que ela poderia lhe dar muito mais, fez alguns setores das sociedades desejarem a tecnologia a qualquer custo, para dominar e acumular poder. Infelizmente, houve uma intervenção exploratória dos recursos naturais a ponto de diminuí-los drasticamente, ação provocada por grupos de pessoas que acreditam que o mundo está à disposição deles, permitindo-lhes a degradação do meio ambiente e o comprometimento da saúde humana. Nesse modelo centrado na técnica. O homem acaba considerando as outras criaturas como coisas, e tem a ilusão de que os recursos do planeta são ilimitados, ou seja, não precisam de reposição. Tal análise ajuda a compreender que a raiz desse mal deriva do próprio homem quando coloca a tecnologia a serviço dos seus próprios interesses econômicos e não a faz promover o desenvolvimento econômico e social dos povos, tal como defenderam a Constituição Gaudium et Spes e as Encíclicas Populorum Progressio e Caritas in veritate e a Doutrina Social da Igreja. De outro lado, a ciência e a tecnologia se especializam cada vez mais, criando diversas ramificações e especialidades. Isso, por sua vez, impede as pessoas de perceberem o todo. Um visão ecológica integradora nos recorda que tudo está interligado, assunto que o Papa Francisco está sempre repetindo e mostrando que o todo é maior que a soma das partes. Como sintomas disso, citem-se a degradação ambiental, a ansiedade, a perda do sentido da vida e da convivência social. Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco já alertava para a necessidade de se estabelecer um diálogo constante entre a realidade e a ideia, evitando que a segunda prevaleça sobre a primeira (EG, 231).

A encíclica L.s. sugere como alternativa o desenvolvimento de uma cultura ecológica que ultrapasse o cuidado com a natureza e o meio ambiente em si e pense na totalidade na vida. Isso implica em perceber que a técnica deve estar em função do bem estar das pessoas, o que exige um estilo de vida que faça olhar o ser humano na perspectiva da totalidade, por isso é importante que a liberdade humana animada pela fé oriente a técnica para que seja voltada para outro tipo de progresso, mais saudável, mais humano, mais social e mais integral, como aponta o Papa Francisco. É o que já mostram alguns exemplos, tais como comunidades de pequenos produtores que conseguem trabalhar com menos poluição nos sistemas de produção, modelos menos consumistas de vida. Nessas comunidades a técnica e ajuda a viver com mais dignidade. Assim, é possível vislumbrar que há outros caminhos para um futuro mais feliz.

Que a realidade possa estar acima das ideias e da tecnocracia, os avanços positivos possam serem incorporados e a recuperação dos valores da vida humana se sobreponham sempre a qualquer paradigma que tenha o poder de ameaçá-la.

Crédito da fotografia: A fotografia que ilustra essa ficha é do rompimento da barragem em Mariana em  novembro de 2015 (http://goo.gl/YtSyUE)

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Para Refletir:

  1. Segundo a encíclica qual o papel da ciência e da tecnologia na construção do mundo?
  2. Na sua visão do mundo, é possível conciliar o avanço da tecnociência e a manutenção da vida em todas as suas formas? Se afirmativa a reposta, como se faria isso?

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Aguarde a publicação da próxima ficha:

Aguarde a publicação da próxima ficha: 24/Agosto/2016 Ficha 112 – A crise do antropocentrismo (LS 9)

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