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Ficha 102: Garantir o direito ao saneamento é cuidar da vida e do meio ambiente – Julgar (CFE 3)

| 09/03/2016 | 0 Comentário

F102Na Ficha anterior, vimos a situação caótica em que se encontra o saneamento básico de nosso País e que essa situação atinge, principalmente, os mais pobres, na periferia, onde se acentuam as maiores deficiências do sistema de saneamento. É uma situação de injustiça contra os pobres de Deus que clama aos céus.

Esta Ficha discorre sobre a segunda parte do Texto-base que, ao utilizar a métodologia: ver, julgar e agir, se dedica a julgar os fatos e as situações que afligem a humanidade nos tempos atuais. Tanta desigualdade entre os seres humanos, não está nos planos de Deus. Não foi isso que Ele desejou para seus filhos, para a humanidade.

A Sagrada Escritura revela a ação progressiva de Deus junto à humanidade desde a criação do mundo. Revela também um projeto de paz e harmonia, de cuidado e amor, não só de Deus pela humanidade, mas do homem com os seus semelhantes (fraternidade e solidariedade) e com a natureza que o cerca – fonte de tudo que precisa para viver – para que a família humana seja constituída, onde o bem comum, desejado por Deus, é o grande objetivo. Nesse contexto, o livro do Gênesis destaca a natureza, como dom de Deus, que precisa ser cuidada com gratidão e respeito, pois existe para a sobrevivência da humanidade. Todavia, subvertendo a ordem da criação, pessoas movidas pela ganância se apropriaram dos frutos da terra que deveriam ser distribuídos entre todos, usaram sua influência para serem beneficiados pelo aparato governamental mantido pela arrecadação de impostos, que recaíam com maior contundência sobre os menos favorecidos. Então a voz de Deus se fez ouvir pelos profetas, que denunciaram todas as formas de opressão e exploração praticada pelos reis e pelos poderosos.

Lembra o Texto-base que no reinado de Jeroboão II, entre 782 e 753 a.C., Israel conheceu um tempo de grandes avanços econômicos e de muita prosperidade para o rei, para a nobreza, para os comerciantes e para os grandes proprietários. A religião oficial da época, marcada pelo culto a Deus nos templos de Betel e Jerusalém, favorecia novos empreendimentos comerciais, mas a concentração de riqueza nas mãos de poucos fizeram aflorar as desigualdades e a degradação do meio ambiente. Os camponeses foram espoliados pelo poder central, na ânsia de acumular riquezas através da cobrança desenfreada de impostos e dízimos.

É nesse contexto que surge a profecia de Amós, que denuncia que o progresso econômico não estava se traduzindo em igualdade e justiça. Segundo ele, esta situação era legitimada pelos responsáveis da religião judaica que, ao invés de revelar um Deus amoroso, favorecedor da justiça e da dignidade para todos, defendia os interesses dos poderosos. Para Amós, os ritos religiosos que não expressassem uma religião de todos e para todos, era mentirosa e vazia.

Na mesma linha seguem os protestos de Isaías, Miqueias e, especialmente em Oseias 4,3 lemos “…por isso, a terra geme e seus moradores desfalecem; as feras, aves do céu e até peixes do mar estão desaparecendo”. O profeta denuncia que a corrupção e a violência humana estão destruindo a ordem e a harmonia da criação. É o próprio homem destruindo relações humanas e a natureza, colocando em risco a Casa Comum. Isaías (58, 6-8) proclama que a justiça e a fidelidade a Deus se revelam nos atos de “desatar os laços provenientes da maldade, desamarrar as correias do jugo, dar liberdade aos que estavam curvados”; e que a prática da justiça consiste também em repartir o pão com os famintos, acolher os pobres sem teto, vestir a quem está nu e jamais recusar ajuda ao próximo.CF2016A CF 2016 buscou seu lema no livro de Amós: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr justiça qual riacho que não seca” (Am 5, 24), no qual o profeta compara o direito com a fonte de água límpida, que forma um rio perene (justiça) que não seca nem mesmo no tempo de estiagem mais severa. A justiça mencionada pelo profeta refere-se à nossa relação com Deus, com o próximo, com o meio ambiente e conosco mesmo, e que se constitui no Projeto de Deus cabendo a cada um colaborar na manutenção do paraíso. Se a desigualdade entre os seres humanos pode parecer para muitos que Deus se esqueceu de seu povo, cabe aos cristãos denunciar as injustiças e anunciaro seu Reino. O objetivo dessa justiça é alcançar toda comunidade e sua organização; não é a “justiça” ou o “direito” que serve apenas aos poderosos, mas a todos, sem distinção. A comparação entre “direito e água” e entre “justiça e rio perene” se mostra bastante interessante ao se ter em conta que na Palestina a água sempre foi um bem muito precioso, por se tratar de região com baixíssimos índices de chuva e com grande números de rios temporários. Lá os recursos hídricos são considerados fonte de vida e dádiva preciosa de Deus, precisando, portanto, serem cuidados e tratados com muito carinho e atenção.

A capacidade de fornecimento de água do planeta está rareando em qualidade e ciclo de chuvas. Isso em função da agressividade do homem ao meio ambiente; do desmatamento acabando com as fontes; da poluição matando os rios e contaminando as águas; da descarga de produtos tóxicos alterando o ciclo climático; da ausência de saneamento básico, na questão dos esgotos, trazendo novas doenças e epidemias. Ora, sendo a água um recurso limitado, deve ser usada com responsabilidade, propiciando a todos o acesso a essa dádiva de Deus. Eis aí nossa responsabilidade não só com a geração atual, mas também com as futuras.

Tal como como naquele tempo, hoje não é muito diferente: bairros ricos e nobres, limpos e arejados, beneficiados com sistema público de saneamento básico e coleta constante de lixo contrapõem-se com bairros pobres sujos e cheios de lixo acumulado, sem esgotos ou com esgoto a céu aberto e muitas vezes sem água. Amós lembra que o bem-estar de todos deve ser o objetivo maior do serviço público estatal mas, cada componente da coletividade deve também fazer a sua parte. Assim, o texto de Amós 5,21-25 continua nos recordando que se não cuidarmos da justiça social para que todos tenham seus direitos individuais, sociais e de saúde respeitados, também nossas celebrações se tornarão vazias e sem sentido e não chegarão a Deus.

Os valores do Reino, anunciados pelos profetas, se plenificam na pessoa de Jesus, o Cristo, que nos dá a conhecer o Plano de Deus para a humanidade, que é a felicidade, a vivência do amor fraterno e solidário, a eliminação do egoísmo e do individualismo, das diferenças sociais e da supremacia de uns sobre outros. Jesus mostra que o bem comum é o grande objetivo, por isso, denuncia a religião e a legislação de sua época, marcada pela lei da pureza, privilegiando os poderosos, que se consideravam abençoados por Deus pela posse de bens riqueza que possuíam, sem importar como foram obtidos, e marginalizando os pobres, que eram considerados impuros e malditos, por isso, excluídos das riquezas. Jesus se posiciona claramente solidário com as pessoas discriminadas. Os pequenos e humildes são sempre aqueles que Ele mais defende: “felizes o que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5, 6-7).

Hoje vivemos subordinados à economia de mercado que privilegia o individualismo e o consumismo, e tenta converter tudo, inclusive os bens primordiais como aágua e a terra, em mercadoria. Esse sistema se contrapõe claramente à proposta profética e à pratica libertadora e solidária de Jesus e, bem por isso, pode e deve ser criticado pela pregação da Igreja. Pelo Batismo, somos chamados a viver a fraternidade almejada por Deus, onde o direito de todos são assegurados, portanto a defesa dos direitos humanos, inclusive o do saneamento básico, é dever discípulos e discípulas de Cristo. Somos chamados, portanto, a refazer nossas relações sociais e ambientais seguindo a prática de Jesus, superando as barreiras da divisão, cuidando do próximo, percebendo em cada irmão e irmã o rosto de Cristo. E, sem esquecer que o cristianismo tem uma grande contribuição a dar, é importante conhecer também os clamores das diversas tradições religiosas que querem e buscam o bem da humanidade e a preservação do planeta. O texto base indica vários exemplos que devem ser conhecidos, e destacamos, por sua antiguidade e sabedoria, a denúncia de Lao Tse, no século VI a.C.: “aqueles que tem maior poder e riqueza tratam o planeta como algo a ser possuído, a ser usado e abusado (…), mas o planeta é um organismo vivo e cada um de nós é uma parte desse organismo”.

Há muito tempo a Igreja vem alertando os cristãos sobre a urgente necessidade de mudança no estilo de vida moderno. Em vários documentos papais e de Conferências Regionais e Conferências Episcopais na América Latina – Medelin, Puebla, Santo Domingo e Aparecida – tais questões têm sido debatidas. E recentemente, de forma incisiva, o Papa Francisco, na Encíclica Laudato si, alerta não só os cristãos, mas toda a humanidade, sobre a gravidade da situação mundial em todos os aspectos da vida social, especialmente na questão ecológica, lançando as bases de um novo paradigma para a superação dessas mazelas.

Refletindo sobre tudo isso percebemos que a fidelidade a Deus deve e precisa se manifestar na preservação de todos os dons recebidos, para que a grande família humana possa viver com dignidade e justiça em um ambiente bem cuidado e saudável. Todavia, não basta apenas refletir, não basta ter um bom discurso, é preciso entrar em ação para transformar o mundo de acordo com o projeto de Deus, o mundo como ele deseja. É preciso cumprir o mandato de Jesus e garantir o direito a todos. Então, mãos à obra!

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Para Refletir:

1 – Por que, apesar de reconhecermos os dons que Deus nos concedeu, também, nós cristãos, pouco nos empenhamos para cuidar deles?

2- Que ensinamentos do “julgar”, contidos na segunda parte, do texto base, são apresentados para compreendermos o plano de Deus para nós?

3- Em quê essa Ficha ajuda a refletir sobre o Direito e a Justiça como vontade de Deus para todos?

 

Orientações para a Interação:

a) Você poderá  discutir este texto, presencialmente,  com seus amigos na comunidade.

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Aguarde a publicação da próxima ficha: 23 de março: Ficha 103: Assumindo a Missão: Promover a universalização do saneamento básico -Agir   (CFE 4).

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