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Ficha 35: A implantação do Concílio Vaticano II na América Latina

| 06/02/2013 | 3 Comentários

A 35ª Ficha de estudos sobre o Vaticano II trata da implantação do Concílio na América Latina, que resultou em inovações e estimulou novas práticas pastorais.

O Concílio conclamou a Igreja a interpretar os “sinais dos tempos” e atuar frente à realidade na qual estava imersa e, a partir dela, dar testemunho do Evangelho. E a Igreja da América Latina o acolheu de modo criativo e inspirador fazendo uma leitura dos documentos, a partir da sua realidade e necessidade, dando um salto qualitativo para além da concepção centro-europeia que prevaleceu no Vaticano II. O contexto histórico na década de 60 na América Latina era extremamente conflitivo, carregado de contradições e tensões, em que imperavam: um sistema de dominação econômica e política; uma cultura burguesa dita católica, porém, sem a essência profético-cristã; regimes militares autoritários; e uma enorme pobreza associada à constante violação dos direitos humanos.

Uma das sugestões do Concílio para os Bispos foi a organização de um Conselho Episcopal para dar encaminhamentos pastorais às decisões tomadas e promover a colegialidade entre eles (CD 9). A América Latina era, até então, o único Continente onde já havia um Conselho Episcopal, o CELAM [1], que fora fundado em 1955, por ocasião da primeira Conferência, no Rio Janeiro, para reunir e congregar os bispos Latino-Americanos, o que, de certa forma, muito contribuiu para a articulação destes no Concílio. Ao longo dos 50 anos do início do Concílio ocorreram momentos muito férteis para este organismo, que realizou quatro Conferências: Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007), cujos documentos evidenciaram a existência de um magistério episcopal bastante encarnado na realidade Latino-Americana, a partir da tríplice opção preferencial: defender e promover a vida; defender e promover os direitos dos povos, sobretudo dos pobres; e reinventar a Igreja na base, como Povo de Deus no meio dos povos da América Latina e Caribe.

Na segunda Conferência, e primeira pós-Concílio, realizada na cidade de Medellín, Colômbia, traçou-se os rumos para a Igreja no Continente, com o tema “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio”, propondo uma evangelização libertadora a partir dos pobres, ou seja, torná-los protagonistas da evangelização a partir de sua realidade social e cultural, trazendo-os para o seio da Igreja onde, até então, não tinham voz e nem vez. Estas orientações fortaleceram a organização pastoral das muitas Dioceses, e nestas nasceram as Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s). As primeiras CEB’s surgiram no período de 1963 a 1967 em áreas rurais e regiões suburbanas, reunindo pessoas pertencentes às camadas populares, como resultado de uma ação conscientizadora do clero e dos religiosos que se deslocaram para regiões carentes em razão da ‘Opção Preferencial pelos Pobres’ e, atuando como agentes de pastorais, ajudaram o povo a perceber elementos reais de sua vida e situação histórica. Organizaram-se de modo participativo para cultivar a fé cristã, através da celebração dominical, unindo leitura bíblica, reflexão e oração; e muitos passaram a se dedicar às Pastorais Sociais, aos movimentos de luta e às reivindicações populares, organizando o povo na luta pelos seus direitos básicos; ajudando a criar uma nova cultura política; educando para a cidadania e a participação. Internamente, estes movimentos contribuíram para que a Igreja se aproximasse mais dos pobres; humanizaram o clero; criaram estruturas de participação e corresponsabilidade; trouxeram espontaneidade e alegria; e encarnaram a liturgia na vida do povo, valorizando imensamente o papel dos leigos.

Medellín firma, assim, o modelo de uma pastoral comprometida com os direitos humanos e a transformação da sociedade, coincidindo com a ascensão dos movimentos populares no mundo, lançando sementes de uma Igreja mais popular e participativa. Optou pelo ecumenismo de missão, em prol da justiça e da paz, onde as Igrejas de várias confissões cristãs se empenharam pela libertação dos oprimidos, em favor da construção de uma sociedade mais justa. Seus temas mais marcantes foram: ‘Justiça’, ‘Paz’ e ‘Pobreza da Igreja’, tendo como inspiração as palavras do papa João XXIII: “A Igreja é de todos, mas principalmente quer ser uma Igreja dos pobres”. Escutou no clamor do povo pobre um verdadeiro sinal dos tempos, a presença do Espírito Santo, que pedia justiça e direito.

Essa Eclesiologia Latino-Americana se concretiza historicamente na perspectiva da Constituição Gaudium et Spes, em sua metodologia ver-julgar-agir, na relação da Igreja com o mundo e, particularmente, ao assumir os ensinamentos da Encíclica Populorum Progressio de Paulo VI (1967), que descreve e critica a ordem social e econômica. Pe. Oscar Beozzo afirma que esta Encíclica teria sido prometida pelo Papa, especialmente, aos Bispos da América Latina, que desejavam uma palavra mais incisiva sobre os problemas dos países pobres, e que ela foi uma ‘das principais fontes de Medellín’.

A terceira Conferência, realizada na cidade de Puebla, no México, contou com a presença entusiasmada do papa João Paulo II e abordou o tema: “A Evangelização no presente e no futuro da América Latina”. O compromisso com a libertação integral do ser humano foi explicitamente confirmado pelo Papa quando, em seu discurso de abertura, condenou os mecanismos que geram ricos cada vez mais ricos, ao lado de pobres cada vez mais pobres. Reafirmando Medellín, Puebla enfatizou a ‘Opção Preferencial pelos Pobres’ e a sua promoção dentro do contexto global, enfocando a sua dignidade como imagem e semelhança de Deus e partícipe da Igreja e da sociedade. Desse modo, manteve o traço profético em defesa da dignidade da pessoa diante das violações presentes nos regimes militares, além da ‘Opção Preferencial pelos Jovens’ e pela ação da Igreja junto aos construtores da sociedade pluralista na América Latina, portanto não só dos pobres. De modo muito especial defende os direitos individuais e os direitos sociais. Em toda a sua reflexão pastoral, busca-se a comunhão e a participação de todos na Igreja e na sociedade para se chegar à verdadeira e autêntica libertação.

A quarta Conferência realizou-se em Santo Domingo, no Caribe, e nela houve o deslocamento do eixo crítico-social para o cultural, diminuindo o impacto da ‘Opção Preferencial pelos Pobres’ e pela libertação, na defesa da dimensão universal da evangelização, com o tema: “Nova Evangelização, Promoção Humana, Cultura Cristã. Jesus Cristo ontem, hoje e sempre”. Um dos seus pontos positivos foi, justamente, a Inculturação [2], que valorizou as culturas afro-ameríndias, a religiosidade popular, e também acenou para a temática da solidariedade Latino-Americana e mundial diante do crescimento da pobreza que fizera aumentar o fosso entre ricos e pobres. Portanto, a opção pelos pobres não foi esquecida, mas foi matizada. Conseguiu-se a reafirmação de importantes opções feitas pelas Conferências anteriores: opção pelos pobres, com a riqueza de suas culturas; nova evangelização entendida como promoção humana integral; e evangelização inculturada.

Após 15 anos da Conferência de Santo Domingo, um longo período diante da rapidez das mudanças ocorridas nos tempos atuais, realiza-se no Brasil a quinta Conferência, na cidade de Aparecida, dentro de um contexto de  desafios e exigências que batem à porta da Igreja e pedem passagem para um  novo período da história: a transição do papado de João Paulo II para o de Bento XVI (2005) que esteve presente na abertura desta; a globalização e o neoliberalismo; o progresso veloz das tecnologias de informação e a consequente extinção de fronteiras culturais entre os povos através do mundo virtual (Internet); a ‘laicização’ das sociedades e o consequente abandono da fé em culturas tradicionais; o controle de uma significativa parte dos Meios de Comunicação Social pelo poder econômico; a ‘escalada’ das religiões neopentecostais nas camadas mais carentes da população e o ‘marketing’ da fé, especialmente, promovido pelas redes televisivas; a ascensão dos movimentos feminista, ecológico, pacifista, antirracista e inter-religioso. Esta Conferência propõe uma grande Missão continental na esperança de fazer dos cristãos “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, para que nele nossos povos tenham vida”.

Todas estas Conferências tiveram sua importância, primeiro pela crescente colegialidade  episcopal Latino-Americano e Caribenho; segundo, por promulgarem documentos com orientações para toda a Igreja do Continente, o que se configura como um magistério particularíssimo; e terceiro, pelo desencadeamento de um permanente movimento de articulação eclesial entre os outros membros da Igreja: padres, religiosos(as), diáconos permanentes, leigos(as) e teólogos(as) que, por sua vez, marca a presença de muitos destes nos diversos organismos sociais que promovem e defendem a vida.

Por fim, cabe reconhecer que foi enorme o impacto do Vaticano II na América Latina e Caribe, no esforço de transformar a realidade socioeconômica, projetando o desafio da pobreza como um desafio para a Igreja Universal e para todas as consciências humanas. Passados cinquenta anos, ainda se busca realizar a implantação do Concílio e a sua concretização como um todo. Por isso, a importância desse estudo para o conhecimento, o entendimento e a prática dos Documentos do Concílio Vaticano II, por todo o Povo de Deus.

Notas

[1] A tradição eclesial Latino-Americana iniciou-se com a 1ª Conferência convocada pelo Papa Pio XII, celebrada no Rio de Janeiro, em 1955. Desta Conferência, originou-se o Conselho Episcopal Latino-Americano, CELAM, anterior ao Concílio Vaticano II, que emanou documentos com profundas reflexões teológico-pastorais que constituem o magistério da Igreja Latino-Americana e Caribenha.

[2] A inculturação é a introdução de uma cultura ou aspectos culturais de um determinado povo à uma outra cultura. A palavra “inculturação” tornou-se importante na Igreja para expressar a presença renovada da Igreja missionária: o Evangelho é anunciado para se tornar um princípio que anima, guia e unifica as culturas, transformando-as e renovando-as a partir de seu interior até produzir uma nova criação, Cf. Redemptoris Missio n.52.

 Referências Eletrônicas

Caliman, Cleto, Do Rio de Janeiro (1955) a Aparecida (2007):  o Itinerário profético da Igreja na América Latina

Libanio, João, B., A Igreja a 50 anos do Concílio Vaticano II

Tosatti, Marco, O Concílio Vaticano II e a América Latina

Correio do Brasil, A recepção do Concílio Vaticano II na América Latina

PUC-RIO, Nova consciência da Igreja na América Latina

 Para Refletir:

1) De que forma as informações desta Ficha ajudam você a conhecer e a compreender melhor a Igreja Católica presente na América Latina?

2) Como a sua Comunidade e/ou Paróquia poderia colocar em prática as decisões emanadas nestas Conferências?

3) Como você vê a incidência dos Documentos do Vaticano II na Igreja Latino-Americana e,  especificamente, em  sua comunidade?

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Orientações para a Interação:

a) Você poderá  discutir este texto, presencialmente,  com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários logo abaixo deste texto.

c) Por fim, você poderá interagir na sala de aula virtual  “Ambiente Virtual de Formação” da Arquidiocese.  Acesse http://www.avf.org.br/e siga as orientações.

Aguarde a publicação da próxima ficha: 20/2 – A Repercussão do Concilio no Brasil

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