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Ficha38: A Conferência Episcopal de Medellín (II)

| 20/03/2013 | 2 Comentários

Nesta 38ª Ficha são apresentadas as duas últimas partes do Documento de Medellín: ‘Evangelização e crescimento na fé’ e ‘A Igreja visível e suas estruturas’. Ambas apresentam uma proposta para renovação da Igreja Latino-Americana segundo os Documentos do Concílio Vaticano II, principalmente no que diz respeito à organização pastoral para uma efetiva ação,  especialmente junto aos pobres.

Na segunda parte, Evangelização e Crescimento da Fé, o primeiro tópico aborda a atenção que a Igreja deve dispensar à “Pastoral Popular”, isto é, à religiosidade tradicional [1], uma das principais características da identidade eclesial Latino-Americana. Reconhecendo seu histórico valor, o Documento expressa a necessária atualização e recondução cristológica que o Vaticano II sugeriu com o objetivo de superar a religiosidade ‘mágica’ e vertical entre o fiel e Deus, e promover uma fé adulta, através da participação nos Sacramentos e na vivência comunitária. Para isto, os bispos solicitavam o empenho de todos na renovação das estruturas pastorais, com atenção especial à Pastoral Popular. O segundo tópico, “Pastoral das Elites”, foi uma espécie de contraponto da “Pastoral Popular”, pois afirma que a atenção com a religiosidade popular não deveria ignorar e/ou marginalizar pessoas com maior grau de formação intelectual, as quais, além de poderem contribuir socialmente, também são destinatárias da Missão. O terceiro tópico, “Catequese”, apresenta a proposta de renovação solicitada pelo Vaticano II: a centralidade do mistério do Cristo, da Sagrada Escritura e dos Sacramentos na vida da Igreja e a importância da participação dos fiéis na comunidade eclesial. O Documento destaca que o anúncio da mensagem do Evangelho deve ter um caráter dinâmico e evolutivo e que, neste sentido, é imprescindível que a realidade socioeconômica e política do povo e as exigências do pluralismo religioso sejam consideradas. Além das orientações comuns a todo organismo pastoral, os bispos apontam para a importância das pequenas comunidades eclesiais. Pela primeira vez aparece a sugestão das CEB’s como espaço que congrega pessoas com um universo cultural mais homogêneo e que muito pode contribuir para a formação eclesial. O quarto tópico aborda a ‘Liturgia’, pois segundo a Constituição SC a renovação litúrgica expressaria a fé do povo a partir da sua realidade e sua cultura. O Documento destaca a centralidade do mistério de Cristo na Liturgia e a celebração dos Sacramentos, especialmente a Eucaristia. Medellín ainda retomou a importância da devoção popular, o incentivo da liturgia em pequenos grupos e comunidades, com destaque para a celebração comunitária da Penitência, as Sagradas Celebrações da Palavra e a criação da Pastoral Sacramental em todas as comunidades e/ou paróquias segundo as orientações da Constituição DV. Estas orientações catequéticas e litúrgicas muito contribuíram para o reavivamento da fé nas comunidades e paróquias. Especialmente, no que diz respeito à Palavra de Deus, esta deixou de ser vista como um livro hermético, conhecido apenas pelo clero, e passou às mãos do povo através dos círculos bíblicos que fazem a Leitura Orante da Bíblia.

Na terceira e última parte: ‘A Igreja Visível e suas estruturas’, os três primeiros tópicos estão vinculados aos temas dos ministérios e das diferentes vocações dentro da perspectiva de uma Igreja toda ministerial e servidora dos pobres, segundo a Constituição LG. O tópico “Movimentos leigos”retoma o capítulo IV da LG e o Decreto AA, destacando a ação dos leigos, pois eles são efetivamente uma presença eclesial de serviço à vida e à promoção humana no mundo. Os movimentos de apostolado dos leigos se intensificaram em todas as Dioceses e, em 1988, com a exortação Cristifidelis Laici tornaram-se mais sólidos ainda. Atualmente, a atuação dos leigos e leigas faz da Igreja Latino-Americana uma das mais atuantes do mundo. O tópico ‘Sacerdotes’ retoma a Constituição LG e o Decreto PO, que trata do ministério daqueles que se associam ao Sacerdócio de Cristo e agem “in persona Christi”. O Documento lembra que as mudanças do mundo afetam todos os que estão envolvidos na Evangelização, inclusive, os presbíteros, na forma de exercer o seu ministério e  viver sua vida, os quais devem se esforçar para ser a presença do Cristo neste mundo, solidarizando-se com os pobres através do serviço da capitalidade, enquanto ministros da unidade, especialmente na condução pastoral do povo. No âmbito social, Medellín ressalta que os padres devem se empenhar na promoção do progresso humano, formando e incentivando os ministérios leigos para uma real presença na sociedade. O tópico “Religiosos” retoma o capitulo VI  da Constituição LG e explicita como vê  e o que espera da presença dos religiosos e religiosas, e dos leigos ligados às famílias religiosas na América Latina, principalmente no engajamento na pastoral orgânica das comunidades cristãs e no testemunho na sociedade.

Por fim, a terceira parte ainda apresenta quatro destaques. O primeiro, “Formação do Clero”, retomando o Decreto OT, diz respeito ao papel dos futuros ministros ordenados na renovação eclesial na América Latina e insiste que a Igreja precisa de presbíteros que dialoguem com o mundo a partir de sua realidade. O segundo apresenta a exigência da “Pobreza da Igreja” como característica central daquilo que identifica o nascimento da Igreja Latino-Americana, como foi sinalizado na Ficha anterior. Medellín quis deixar uma profunda reflexão sobre a necessidade da Igreja ser Pobre; que sua ação pastoral seja para os pobres; e que os bispos não fiquem indiferentes diante das injustiças sociais existentes na América Latina. De forma profética, o Documento aponta a contradição entre a forma de viver dos membros da hierarquia católica, quase sempre com segurança, e a pobreza do povo. Diante disso, os bispos pregam a pobreza espiritual como atitude de quem tudo espera do Senhor, e a pobreza material como compromisso assumido voluntariamente e por amor à condição dos necessitados deste mundo. Com estas atitudes, a Igreja denunciaria “a carência injusta dos bens deste mundo e o pecado que a engendra”. Os bispos, ainda, destacaram a importância da Doutrina Social da Igreja, que tem a missão de colaborar na transformação da realidade ‘angustiosa de milhões de pobres na América Latina’. O terceiro destaque recai sobre a necessária “Colegialidade’, ou ‘Pastoral de Conjunto’ que o Concílio Vaticano II tanto insistiu na LG. As principais justificativas são os princípios de comunhão entre os batizados e a catolicidade, como eixo de unidade de todas as comunidades (LG13), apresentados como: a valorização e a implantação das ‘comunidades eclesiais de base’ para a promoção e a edificação do Corpo de Cristo, “sinal da presença de Deus no mundo” (AG 15); a promoção da formação adequada dos que se colocam no serviço da missão; a revitalização das estruturas pastorais, para que as paróquias sejam ‘um conjunto pastoral vivificador e unificador das comunidades de base’, que a Conferência de Santo Domingo chamará de ‘redes de comunidades’ (AA10). Que nas dioceses seja organizada a Pastoral de Conjunto; que haja o Conselho Presbiteral e um Conselho Pastoral, e que esta estrutura exista em níveis regionais e nacionais  para o fortalecimento das Conferências Episcopais e que, por sua vez, demonstrem o trabalho pastoral de conjunto  com planos pastorais que correspondam sempre à realidade humana e às necessidades religiosas do Povo de Deus. O último destaque, fica para os “Meios de Comunicação Social”, que retoma o Decreto IM e a sua importância na Evangelização, apelando para que todos os organismos eclesiais se empenhem com coragem na utilização deles, lembrando que esses meios são essenciais para sensibilizar a opinião pública no indispensável processo de transformação da América Latina.

Ao concluir a reflexão sobre Medellín, é necessário afirmar que o Documento ainda é desconhecido pela maioria dos católicos. Ele é paradigmático, pois assume integralmente o Vaticano II e tenta traduzi-lo para a Igreja Latino-Americana. Se, na primeira parte, colocou os pressupostos para a promoção humana que deveriam ser assumidos por qualquer ‘pessoa de boa vontade’ presente no mundo, nas duas últimas partes, o Documento apresenta as exigências evangelizadoras para a comunidade eclesial contribuir na formação de uma nova sociedade. Estas exigências estão ligadas ao evangélico apelo para que a Igreja seja pobre, tal qual desejou seu fundador, pois somente assim ela conseguiria cumprir o seu mandato de anunciar a Boa Nova do Reino.

Passados 45 anos, Medellín continua tendo a sua importância como aquela que lançou diretrizes para a organização pastoral da Igreja no Continente e que colocou o desafio desta Igreja ser pobre junto aos pobres. Todas as subsequentes Conferências Episcopais a seguiram, mas nenhuma delas a superou! Portanto, se faz urgente redescobrir a beleza e o valor deste importante documento do genuíno magistério, que em muitos pontos ainda orienta para um ideal da Igreja Latino Americana.

Nota

[1] A religiosidade popular tem suas raízes mais longínquas no período colonial, quando o povo, sem o devido e necessário atendimento religioso, acabou construindo uma expressão católica singular. De um lado, mantinha o vínculo da fé através da transmissão oral dos poucos ensinamentos recebidos; de outro, justamente por não ter acesso ao atendimento pastoral, não ‘se educou’ para receber os Sacramentos e se vincular com a doutrina católica.  Pe Luiz Roberto Benedetti identifica esta  religiosidade com as seguintes características: ‘muito santo, muita reza e pouco padre’ (Os Santos Nômades, e o Deus Estabelecido” Ed. Paulinas, 1994). A importância desta religiosidade reside no fato de que, na maioria dos países, ela foi o único vínculo com o catolicismo. Na primeira metade do século XX,  através do movimento da romanização, a Igreja intensificou a sua ação, por meio  da presença de um maior número de padres e religiosos, com o objetivo de corrigir aquilo que a Igreja entendia como erros doutrinários da  religiosidade popular. Já, o enfoque pastoral do Concílio Vaticano II, assumido por Medellín, sem esquecer a centralidade Cristológica, teve um outro olhar para a religiosidade popular.

Referências Eletrônicas

Beozzo, José Oscar, Medellín: inspiração e raízes

Boff, Clodovis, A Originalidade Histórica de Medellín  

Comblin, Joseph, Conferência Episcopal de Medellín: 40 anos depois

Raschietti, Estevão,Medellín 40 anos

CELAM,Documento de Medellín

Para refletir:

1) Quais as principais características da Igreja Latino-Americana e qual a herança deixada por Medellín?

2) Você concorda que Medellín propôs mudanças no modo de se viver a fé? Por quê?

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Aguarde a publicação da próxima ficha: 03/04 – A Conferência Episcopal de Puebla (I Parte)

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