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Ficha 37: A Conferência de Medellín (I)

| 06/03/2013 | 2 Comentários

A Conferência de Medellín foi a segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e realizou-se na cidade de Medellín, na Colômbia, em  1968, sendo a primeira realizada depois do Concílio, cujo título expressa sua íntima ligação com aquele evento: “A Igreja na presente transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II”, uma tradução dos documentos do Concílio para a  realidade Latino-Americana. No discurso de abertura o Papa Paulo VI lembrou que ela inaugurava um novo período da Igreja no Continente[1], o que Clodovis Boff  destaca como  uma nova consciência eclesial, isto é,  o despertar de uma Igreja comprometida com a defesa da vida dos pobres. A reafirmação deste principio eclesial nas subsequentes Conferências Episcopais confirma a sua importância e singularidade. Os principais temas da Conferência de Medellín se dividiram em 3 grandes partes: ‘Promoção Humana’,  ‘Evangelização e Crescimento na fé’   e  ‘A Igreja Visível e suas estruturas’. Esta 37ª Ficha aborda o contexto em que surgiu esta Conferência e sua primeira parte: Promoção humana com os seus subtemas, todos  fundamentados nos documentos conciliares de cunho social, especialmente a Constituição Pastoral Gaudium et Spes (GS), que é tida como a Carta Magna da Doutrina Social da Igreja (DSI) [2].  As Encíclicas Sociais, Mater et Magistra (1961) e Pacem in Terris (1963) de João XXIII, anteriores ao Concílio, e a Populorum Progressio, de Paulo VI, publicada logo após, em 1967, foram fundamentais para definir a linha de reflexão dos bispos em Medellín. Especialmente na última, o Papa retoma a GS e afirma que o desenvolvimento ou o progresso dos povos depende intrinsecamente dos investimentos sociais dos governos e da sociedade civil  de um determinado país. De forma muito significativa ele afirmou que o novo nome da Paz era ‘Desenvolvimento’.

Os documentos conciliares e a clara posição dos papas nas três Encíclicas Sociais acima citadas acabaram despertando o olhar crítico de setores eclesiais e civis sobre a realidade social e econômica do Continente, a ponto de fazer surgir uma clara oposição à teoria econômica desenvolvimentista, sustentada pelos regimes militares da maioria dos governos [3]. Uma das experiências mais significativas de engajamento social da Igreja foi realizada pelo Movimento ‘Ação Católica’ e seus vários segmentos que adotaram a metodologia do ‘Ver, Julgar e Agir’ e pela Campanha da Fraternidade. O próprio Documento de Medellín foi elaborado tendo como base esta metodologia, e os seus 16 tópicos trazem uma leitura da realidade (ver), uma iluminação a partir dos princípios teológicos (julgar) e as recomendações e/ou sugestões de aplicação (agir).

Esta efervescência eclesial que iniciou no Concílio Vaticano II e teve seu ápice em Medellín foi abordada por teólogos Latino-Americanos, contribuindo para o surgimento da teologia Latino-Americana que eclodiu, em 1968, com o livro ‘Teologia da Libertação’ do teólogo peruano Gustavo Gutierrez. Pela primeira vez se identificava a existência de um pensar teológico a partir dos pobres e dos despossuídos (aqueles que tinham posses e foram espoliados), vítimas de um sistema injusto. Segundo esta teologia, a pobreza é um pecado social que priva milhares de pessoas de uma vida digna e, tal como Jesus escolheu os pobres, também a Igreja deveria servi-los rompendo com a tradição de uma Igreja associada aos poderosos do mundo.

Esta reflexão passou a ser cada vez mais compartilhada por um número significativo de bispos. No discurso de abertura em Medellín, o Cardeal Juan Landázuri Ricketts, presidente da Conferência Episcopal  Peruana, manifestou que os bispos deveriam passar a ter duas atitudes a partir de então: ‘saber escutar’ e ‘saber estar presente’. Segundo ele, ‘saber escutar’ Deus e depois, ‘saber escutar’ a voz do mundo, considerando-o tal como ele é, pois o Senhor se encontra no mundo. Saber ‘estar presente’ significa cumprir a responsabilidade pastoral: identificar-se e comprometer-se com os pobres do Continente, denunciando tudo o que oprime a pessoa humana [4].

Com relação à primeira parte do Documento, Promoção Humana, o primeiro tópico “Justiça” afirma que a busca da justiça pelo povo Latino-Americano é uma exigência evangélica e que a Igreja tem a missão de promovê-la e defender todos aqueles que dela precisam, bem como colaborar na organização da classe trabalhadora através da formação. O documento ainda cita que somente uma reforma política verdadeira e profunda poderia contribuir para a justiça e o desenvolvimento da América. Como sugestão pastoral, os bispos lembram a necessidade da criação de Comissões de Justiça, através de associações com organismos e instituições civis, e a revitalização de Organismos Pastorais que ultrapassem a beneficência. Especialmente  no Brasil, setores da Igreja que acolheram Medellín se empenharam  na defesa de presos políticos através de Comitês de Justiça e no empenho em favor dos mais pobres através da criação das Pastorais Sociais,  dentre elas a Pastoral da Terra, a Pastoral Operária, as Ceb’s  e outras.

No segundo tópico, ‘Paz’, seguindo a lógica da Populorum Progressio, o documento expressa que ‘se o desenvolvimento é o novo nome da paz, o subdesenvolvimento Latino-Americano é uma injusta situação, promotora de tensões que conspiram contra a paz’, isto é, os bispos, destacam a existência de um sistema econômico profundamente injusto, fruto da herança colonial e da recente exploração pelo sistema capitalista. Lembram, também, que a estrutura do poder sempre esteve nas mãos dos detentores do poder econômico que isto acabou gerando um círculo vicioso que não permitia as mudanças necessárias em favor dos pobres; e que a Paz, como fruto da justiça, depende do desenvolvimento social sincero e profundo, possibilitando a plena cidadania do povo. O Documento ainda destaca que a Paz não é uma ideia ou utopia, mas o resultado de uma prática social que deve ser construída, cotidianamente, principalmente, porque a Paz necessária, sob a ótica de comunidade eclesial, não é aquela que é dada pelo mundo,mas a que vem de Cristo. Como sugestão pastoral, Medellín destaca o empenho para uma forte conscientização do povo sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos a ser realizada através da associação de organismos promotores da vida, especialmente as Universidades, e pede que as Igrejas cristãs se empenhem na defesa dos direitos dos pobres e combatam as políticas de defesa que se amparam na política armamentista.

No terceiro tópico ‘Família e Demografia’ afirma de forma muito  clara e lúcida que,  como  em todo o mundo, também na América Latina a família passa por sérias mudanças sociais e  religiosas. A Conferência observa que apesar da família moderna passar por sérias crises, ela é uma instituição importante para o resgate dos valores humanos fundamentais da vida, como formadora de pessoas e de novas famílias, e promotora de desenvolvimento. Em defesa da Encíclica Humanae Vitae, os bispos destacam que o controle da natalidade, praticada em muitos países, esconde  um projeto econômico fundamentado no acúmulo de bens. O próprio Papa Paulo VI teria afirmado que “não se trata de diminuirmos os comensais, mas de multiplicar o pão”, ou seja, a Encíclica defende o direito de todos igualmente. Como orientação pastoral, sugere a criação e  a organização da Pastoral Familiar nas Dioceses.

No quarto tópico ‘Educação’, os bispos, destacam que só haverá desenvolvimento social e econômico se houver investimento na educação. Conscientes que o baixo nível de escolaridade dos jovens está intimamente relacionado à pobreza de grande parte das famílias Latino-Americanas, o Documento lembra da urgente e necessária democratização escolar, através da criação de vagas e da renovação dos currículos. Na linha da Declaração GE, apela-se para que a educação seja humanista e alicerçada nos valores cristãos. Por fim, destaca que a escola católica e, especialmente, a Universidade Católica são importantes espaços para a formação dos jovens cristãos.

No último tópico, ‘Juventude’, o Documento reconhece que o contingente de jovens Latino-americanos possui uma força inigualável, mas lembra o desafio de formá-los adequadamente.Como sugestão pastoral, os bispos pedem um empenho para a estruturação da Pastoral da Juventude.

Como Medellín está associada às discussões sobre pobreza, injustiças sociais e libertação politica e econômica, esta primeira parte é mais conhecida e também considerada a mais importante do Documento. Os cinco tópicos abordados contribuíram para o despertar de muitas Dioceses no que diz respeito à urgente renovação da Igreja através de uma Pastoral Social engajada e transformadora. As reflexões e as práticas que dela se efetivaram, contribuíram para a identidade da Igreja Latino-Americana. Medellín deve, então, ser entendida como a precursora da Conferência de Puebla (1979), que explicitou a Opção Preferencial pelos Pobres.

 Notas

[1] Discurso de Sua Santidade o Papa Paulo VI na abertura da Segunda Conferência, Petrópolis, Vozes, 1969, 9-13.

[2] Doutrina Social da Igreja (DSI) é a parte do Magistério (ensinamentos) da Igreja que aborda a prática social que nasce da fé, que existiram desde os primórdios do Cristianismo, mas costuma-se datar seu  inicio com a Rerum Novarum, de Leão XIII (1891), quando o papa fixou princípios, critérios e diretrizes gerais a respeito da relação trabalhador e trabalho. Em 1931, a expressão “Doutrina Social” aparece na Encíclica Quadragesimo anno e, a partir daí, se desenvolveu como uma disciplina moral da Igreja. Em 1941, Pio XII fala em ‘‘Doutrina Social Católica’’ numa rádio mensagem, em comemoração ao 50º ano da Rerum Novarum, e em 1950, na sua Exortação Apostólica Menti nostrae  surge o termo “Doutrina Social da Igreja”, que é consolidado com o Papa João XXIII em seu Magistério. A Constituição GS e LG, os Decretos CD, PO, AA, e as  Declarações DH e GE,  em função de seus conteúdos sociais, deram grande impulso a DSI. A partir daí, Paulo VI e, João Paulo II publicaram muitos documentos abordando esta prática social. Em 2004, todos os Documentos da Doutrina Social da Igreja foram sistematizados no ‘Compêndio da Doutrina Social da Igreja’.

[3] A  teoria Desenvolvimentista defendia a ideia de que, a partir do crescimento demográfico e dos investimentos internacionais, os países Latino-Americanos alcançariam um boom socioeconômico que os tiraria da histórica dependência econômica, e que era preciso esperar o desenvolvimento e o consequente enriquecimento dos países para depois haver os investimentos na área social. A história, porém, mostrou que a riqueza gerada durante o período desenvolvimentista continuou concentrada nas mãos dos grandes investidores, e os pobres em pouco ou nada foram beneficiados.

[4] Discurso de Abertura  do Cardeal Juan Landázuri Ricketts, Petrópolis, Vozes, 1969, 21-26.

Referências Eletrônicas:

Beozzo, José Oscar, Medellín: inspiração e raízes

Boff, Clodovis, A Originalidade Histórica de Medellín   

Comblin, Joseph, Conferência Episcopal de Medellín: 40 anos depois

Raschietti, Estevão, Medellín 40 anos

CELAM, Documento de Medellín

Gravura:  En la Cena ecológica del Reino

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Para refletir:

1) Quais os principais destaques que Medellín sugere para a renovação das Dioceses e Paróquias?

2) De que forma as sugestões pastorais de cunho social contribuíram para a renovação da Igreja?

Orientações para a Interação:

a) Você poderá  discutir este texto, presencialmente,  com seus amigos na comunidade.

b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários logo abaixo deste texto.

c) Por fim, você poderá interagir na sala de aula virtual  “Ambiente Virtual de Formação” da Arquidiocese.  Acesse http://www.avf.org.br/e siga as orientações.

Aguarde a publicação da próxima ficha: 20/03 –  A Conferência Episcopal de Medellín (II Parte)

 

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